Neste brilhante trabalho, o historiador Nicolau Sevcenko nos mostra o contexto da Revolta da Vacina, revolta popular ocorrida em 1904, no contexto da Primeira República (oligárquica) desvendando os motivos desta manifestação popular, que iam muito além da posição contrária a vacina de varíola. A Revolta da Vacina estava muito mais permeada pelas arbitrariedades cometidas pela política sanitária comandada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz e a política de despejos (bota abaixo) promovida pelo o autoritário prefeito do Rio, Pereira Passos, que retirava à força as populações pobres do centro, especialmente dos cortiços e casarões, com a motivação de reorganização e modernização do centro do Rio de Janeiro. Adiciona-se a isso a insatisfação política ao presidente Rodrigues Alves, o alto desemprego e carestia, a ausência assistência básica do governo federal as populações pobres e os anseios das classes operárias, ainda alheias a participação política e eleitoral no contexto de arranjos das oligarquias e da dependência econômica agroexportadora de café e da crescente dívida internacional do Primeira República Brasileira.
As condições de vida vinham se degradando inexoravelmente na cidade do Rio de Janeiro, nesse período de transição do século XIX para o século XX, e do Império para a República. O espaço urbano acanhado, todo entremeado de morros e áreas pantanosas, mal se prestava à acomodação de uma cidade de dimensões médias. A capital do país passaria nesse momento, entretanto, por um processo vertiginoso de metropolização, com a população crescendo de forma desorganizada, com uma classe política viciada no poder e ausente no debate sobre a melhoria de vida dos pobres. A questão social acabara de se edificar como algo preocupante para elites oligárquicas da Política do café com leite, embora os pobres estando alheios a participação institucional da política e das eleições.
Sevcenko nos mostra que se criou, ao longo da História e através dos discursos oficiais, um discurso maniqueísta sobre um fato que não se restringe a vacinação. A política autoritária e o pano de fundo político influenciaram mais a revolta em si do que a motivação sanitária. É obvio que o discurso anti-vacina foi o mote, mas há mais insatisfação pela ausência de cuidado com os pobres e com suas reivindicações do que meramente uma contrariedade da vacinação.
Sevcenko desvenda o modo e operação da política da Primeira República, violenta, antipopular, arraigada no tradicionalismo de uma elite agrária pouco afeita a atender ou ouvir as demandas populares da população mais pobre. Os primeiros anos da república no Brasil nos mostram como um discurso político é materializado para a manutenção da pobreza e da constante necessidade de privar os espaços públicos a uma elite. Infelizmente a história do brasil tem inúmeros exemplos. Quase como um lema: entre o público e o privado, instrumentos de poder e uma história de violência, lutas, exclusões e dependência econômica.