Mais uma ficção sobre os anos de ditadura civil-militar brasileira que só não entrou na série de sugestões (vejam os destaques no perfil) porque 1) eu ainda não havia lido e 2) não tinha conhecimento de qualquer texto crítico que falasse dele, bem ou mal. Encontrei por acaso num sebo, o título me chamou a atenção e quando li a sinopse, eita!, agarrei e comprei.
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O livro foca nas vidas entre-e-pós-regime de três personagens que participaram da resistência à ditadura e formam um triângulo amoroso; dois deles, Beto (o narrador) e Jorge Marcos, se conhecem nos porões de uma prisão quando Jorge é despejado aos pés de Beto após uma sessão de tortura, e a terceira ponta, Iracema, uma estudante universitária profundamente engajada na luta clandestina. À medida que a narrativa de Beto se articula, no entanto, há um outro romance se escrevendo, aquele “sem palavras” do título, uma história não contada que só será entrevista no último capítulo do livro.
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Uma imagem atravessa, de uma ponta a outra, a extensão desta novela de Cony: o corpo nu despejado de Jorge Marcos, preso político, na cela B17, sujo de sangue, doído e sem esperança, um “troço de carne ferida que mais parecia carniça” ainda com um pedaço de fio, usado para choques elétricos, saindo da uretra. Apesar de seguirem em frente, as vidas dos três protagonistas de Romance sem palavras serão profundamente marcadas por aquele fio.
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Arrisco dizer que algumas das razões para o livro ter sido tão ignorado por quem estuda literatura e ditadura tenha a ver com certas informações equivocadas e imprecisões temporais que, por mais que não atrapalhem a narrativa, podem enfraquecê-la. Ou talvez se deva à imagem mesquinha de alguns membros da resistência (que chegam a colocar uma operação em risco ou lançar um companheiro nas mãos da polícia por ciúmes). De uma maneira ou de outra, vale sim a leitura para aprendermos como a literatura consegue transformar um fio elétrico em imagem aterrorizante e indelével.