Com uma inegável habilidade com as palavras, JCO usa as suas histórias para fascinar, atiçar e...por que não?... assombrar o leitor o tempo inteiro :p Suas tramas são altamente provocadoras, pois nada é exatamente como em princípio se mostra. Ela nos conta histórias e mais histórias e, creio, o faz com uma astúcia que encontrei em poucos autores. Nunca a ideia de que o diabo mora nos detalhes ficou tão evidente quanto no momento em que entrei em contato com a obra desse gênio literário da contemporaneidade (lugar comum, eu sei, mas EXATO). Não há mocinhos ou bandidos nas histórias da JCO. Se você leu e conseguiu classificar de forma sistemática e ordenada cada personagem, esqueça. Não há anjos ou demônios: são todos humanos, cruel e fatalmente humanos, dolorosa e impiedosamente humanos.
Os homens, claro, quase sempre são os sujeitos ativos da violência (ou vai jurar que na vida como ela é não é assim? Rá!); no entanto, JCO, gloriosamente, nada tem de maniqueísta, aleluia! Esses mesmos homens não são pura e simplesmente predadores mas, cativos da mesma violência que propagam, inevitavelmente presas, envoltos em uma ciranda de horror que faz da vítima o carrasco e vice-versa. Neste aspecto, pode-se dizer que JCO representa bem aquilo que Faulkner dizia amar a humanidade inteira(como só os grandes conseguem).
Stop! Até aqui, o copia e cola funcionou bem, pois usaria as mesmas palavras para iniciar as minhas observações acerca de todas as obras lidas da autora até o momento (qualquer semelhança com o início da resenha de Minha vida de rata não é mera coincidência :P).
Bem, especificamente quanto à obra em questão, a primeira pergunta é? QUEM É CLARA? Alguém conseguiu descobrir? Pois é. Nem eu. Assim como todas as heroínas de JCO, Clara é um enigma até para si mesma (Hazel Jones, é você?). Pode ser a mãe que precisou mentir, fingir e manipular para oferecer um futuro digno ao filho (não julgueis. Se em qualquer época uma mulher criando um filho sozinha seria difícil, imagine no cenário estadunidense pós 1929, sendo quase uma criança, abandonada pelo Príncipe Encantado). A mulher que, inconformada com o abandono, fez um pacto de sobrevivência com a própria tragédia.Ou alguém usando as armas que possuía em meio à miséria.
E, novamente, uma pausa! Como eu amo a maneira astuciosa de JCO em esfregar-nos o patético complexo de Cinderela que ainda ronda muitas de nós. As heroínas que imortalizou estão (em princípio, que fique claro!) sempre ansiando pela salvação materializada pelo amor de um homem (que triste, hein, Violet? :P)...ou alguém não se lembrou de imediato da figura do Tignor (pobre Rebecca-Hazel) ao deparar-se com Lowry (embora, verdade seja dita, este fosse menos cruel e desonesto, mas...será mesmo?) Não obstante, evidentemente, a menina má não permita que suas heroínas se prendam eternamente ao mito do amor romântico e, oh, glória, desde cedo se descobrem sozinhas, terrivelmente sozinhas, obrigadas a fazer da solidão a própria força ( a mesma força que permite com que sobrevivam a despeito dos homens que cruzam, cruzaram ou cruzarão os caminhos que tiverem que percorrer para não sucumbirem à tragédia que é já nascer condenada ao escárnio, à dor, à incompreensão).
(E, remontando a Lowry, curioso pensar que aquele a quem Clara se entregará contava somente vinte e poucos anos. Carregando e, tempos depois, abandonando a nossa heroína, tive a impressão de estar lendo sobre um homem muito mais velho. E, no entanto, era somente um jovem com angústias tão suas quanto as da nossa heroína. Este mesmo homem que condenará o filho ao sentenciar: - Eu vejo na sua cara um mundo de coisas que você ainda vai matar, ferir,estraçalhar).
Assim como o inesquecível Joe Christmas, imortalizado pelo prodigioso Faulkner, o nosso querido Swan já nascera condenado. (Sim, afeiçoei-me ao nosso homicida com a mesma ternura dedicada ao pequeno Zach, aquele por quem a filha do coveiro ressignificará toda a sua existência.)
Quanto a Revere, outro dos homens da vida da nossa inescrutável protagonista, o que poderíamos dizer? Um homem mais velho e casado apaixonado por um mocinha linda e adorável. Um baita clichê, não é? Mas não nos curvemos às fáceis classificações.Poderia ser alguém melancólico que, assim como muitos de nós, só queria ser tocado pela chama do amor (patético, eu sei), sentimento este que, ao contrário de tudo o mais que o nosso senhor estava acostumado, não é possível ser adquirido somente pela força do dinheiro.
Diante de tudo, só me ficou um questionamento ao final: quem será capaz de dizer aonde o algoz se torna se vítima e vice-versa?
Pois é. Se você é do tipo que curte ideias simplistas, reducionistas, maniqueístas etc etc etc...por favor, não leia JCO :P
Talvez JCO tenha apenas compreendido como Emerson: As ações dos homens são demasiado fortes. Mostrem-me um homem que não tenha sido vítima das suas próprias ações.
O resto você descobrirá lendo o livro. E, assim como ocorreu comigo, espero que seja apenas o início de uma longa e duradoura história de admiração e cumplicidade literária com uma das mais fascinantes autoras dos séculos XX e XXI. E que venha o Nobel (e, caso não venha, será apenas mais uma entre dezenas de autoras brilhantes que a academia sueca não teve a sensatez de premiar :P).