A Relíquia -

    Eça de Queirós

    Ateliê Editorial
    2003
    363 páginas
    12h 6m
    ISBN-10: 858585152x
    Português Brasileiro

    A Relíquia inaugura nova perspectiva na obra de Eça de Queirós. A feição mais conhecida do grande romancista é aquela compromissada com o discurso cultural do realismo naturalista ( O crime do padre Amaro, O primo Basílio, Os Maias), segundo o qual a ficção só se legitimava por meio da incorporação das convicções da ciência da época, que pressupunha um enredo racional e lógico, concebido conforme a dinâmica da vida real. Por meio desse tipo de enredo, a que se pode chamar "verista", o autor procurava reformular os valores da burguesia católica e monarquista de Portugal, demonstrando adesão convicta aos princípios do tempo. Editada pela primeira vez em 1887, A Relíquia procurava abandonar a ditadura dos pressupostos científicos da época e instaurar o domínio da imaginação crítica, a partir da célebre fórmula: "Sobre a nudez forte da verdade, o mantos diáfano da fantasia", que fundamenta a trama e o tema dessa nova obra-prima de Eça de Queirós. Nasce daí a literatura fantasista ou alegórica, por meio do qual o autor inaugura o romance problematizador em Portugal: excedendo os limites da crítica social, A Relíquia procurava relativizar a noção de verdade absoluta, por meio de ironia, da paródia, do humor e da interdiscursividade. O romance produz, sobretudo, uma deliciosa caricarura das convicções religiosas irracionais, que normalmente se amparam na prática dos "bons custumes".

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    Israel de Oliveira Costa picture
    Israel de Oliveira Costa17/10/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Nada deixa a desejar

    A Relíquia (1887), de Eça de Queirós, narra as aventuras de Teodorico Raposo, cuja vida começa de forma tranquila até a morte de seus pais, que o deixa sob os cuidados de sua tia, Dona Patrocínio. Dona de uma considerável fortuna e profundamente católica, a tia exerce enorme influência sobre o sobrinho, e Teodorico logo se vê preso entre dois mundos: de um lado, o desejo de desfrutar os prazeres mundanos, e de outro, a necessidade de fingir uma devoção religiosa constrangedora para agradá-la. Eça de Queirós constrói a trama com seu característico humor fino, ácido e sagaz, apresentando diversas situações cômicas em que Teodorico se envolve, quase sempre em busca de aventuras amorosas, mas constantemente temendo que sua tia descubra suas traquinagens e o deserde. A narrativa ganha força quando Teodorico decide viajar para Jerusalém, a mando de Dona Patrocínio, com a missão de trazer de lá uma relíquia sagrada. Sua esperança é impressionar a tia e garantir a tão desejada herança. Durante sua viagem à Terra Santa, o leitor é presenteado com uma demonstração magistral do talento de Eça para o realismo fantástico. Teodorico é transportado para o cenário da crucificação de Cristo, onde se torna uma espécie de testemunha dos eventos, desde o julgamento até a ressurreição. Essa passagem da obra é repleta de ponderações históricas e críticas sutis, em que o autor apresenta sua própria visão dos acontecimentos bíblicos. A mudança no tom narrativo lembra obras como O Mestre e Margarida (1967), de Mikhail Bulgákov, e Três Contos (1877), de Gustave Flaubert, que também mesclam história e ficção com maestria. O desfecho é hilário e inesperado, quando Teodorico retorna a Lisboa carregando relíquias sagradas em sua mala, apenas para enfrentar uma reviravolta que encerra a trama de forma brilhante. A Relíquia confirma o lugar de Eça de Queirós entre os maiores autores da literatura mundial, estando à altura de suas obras mais consagradas, como O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878), Os Maias (1888) e A Cidade e as Serras (1901). Leitura recomendada para quem aprecia um clássico repleto de ironia, crítica social e toques de fantasia. Nota: 4/5

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