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    Mentira Romântica e Verdade Romanesca -

    René Girard

    É Realizações
    2009
    368 páginas
    12h 16m
    ISBN-10: 8588062763
    Português Brasileiro
    4.6
    29 avaliações
    Leram51Lendo16Querem155Relendo0Abandonos1Resenhas5
    Favoritos7Desejados155Avaliaram29

    O homem é incapaz de desejar por si mesmo: é necessário que o objeto de desejo seja designado por um terceiro, o qual pode ser exterior à ação romanesca, tais como os manuais de cavalaria para Dom Quixote ou os romances de amor para Emma Bovary. Por vezes, é inerente à ação romanesca, inclusive, aqueles que sugerem seus desejos nos heróis de Stendhal, de Proust ou de Dostoiévski são personagens deste livro. Há uma relação sutil de admiração, de rivalidade e de ódio entre os heróis e seus intermediários. René Girard estabelece um impressionante paralelo entre a vaidade em Stendhal, o esnobismo em Proust e a ressentida idolatria em Dostoiévski. Por outro lado, René Girard não só lança uma nova luz sobre as maiores obra-primas da literatura romanesca como aumenta nosso conhecimento da alma humana. Segundo ele, acreditarmo-nos livres, sermos autônomos nas nossas escolhas, seja na escolha de uma gravata ou de uma mulher, não passam de uma ilusão romântica. Em verdade, escolhemos apenas os objetos desejados por outrem...Desse modo, Girard percebe o fenômeno do desejo triangular, seja na publicidade, na galanteria, na hipocrisia, na disputa dos partidos políticos, no masoquismo e no sadismo etc. Eis um grande livro conduzido com tal habilidade que, por meio de uma análise completamente original dos romances mais célebres de todos os tempos, muito contribui para elucidar uma de nossas maiores inquietações: quais são os motivos subjacentes às condutas humanas aparentemente mais livres?

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    Carolina Campos Rangel29/09/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O homem possui ou um Deus ou um ídolo

    Girard descreve a busca pela divindade através do desejo metafísico, cujo funcionamento dá-se de forma triangular, na qual o indivíduo, através de um mediador, encontra um objeto de desejo, um ídolo. O desejo metafísico (a vaidade) metamorfoseia o objeto, transformando-o em algo que ele não é - apenas o sujeito o percebe daquela forma. Ao obtê-lo, advêm a frustração, pois não alcança a gratificação que procurava. O amor verdadeiro não transfigura - as qualidades que esse amor descobre em seu objeto, a ventura que dele espera, não são ilusórias. Estamos tratando aqui do "temperamento ciumento" e da "natureza invejosa" aos quais todos estamos suscetíveis - a irresistível propensão em desejar o que desejam os Outros, ou seja, imitar seus desejos. O que o romancista medíocre nos daria como provindo dele, o romancista genial nos apresenta como advindo do Outro, e eis o que faz a intimidade verdadeira da consciência. À medida que vão se inflando as vozes do orgulho, a consciência de existir passa a sentir mais amargor e solidão. O impulso da alma para o lado de Deus é inseparável de uma descida para DENTRO DE SI MESMO. Inversamente, a retração do orgulho é inseparável de um movimento de pânico para o lado do OUTRO. É porque não ousa encarar de frente seu NADA que o herói se precipita em direção ao Outro poupado, aparentemente, pela maldição. É assim que a publicidade mais hábil não procura nos convencer que um dado produto é excelente e sim que ele é desejado pelos Outros. O ser de paixão se dirige ao objeto de seu desejo sem se preocupar com os Outros. É o único realista num universo de mentira. Eis porque parece sempre um pouco maluco. Ele desnorteia e desorienta o vaidoso porque vai direto à verdade. O ser de paixão é a flecha indicadora num mundo invertido. O ser de paixão é a exceção, o ser de vaidade, a norma. Proust e Dostoiévski não definem nosso universo pela ausência do sagrado, como fazem os filósofos, mas por um sagrado pervertido e corrupto que envenena poupo a pouco as fontes da vida. O desejo metafísico arrasta suas vítimas para o lugar ambíguo do fascínio. O ser fascinado que quer esconder de nós sua fascinação e escondê-la de si próprio, tem sempre de fingir estar vivendo segundo um modo de vida compatível com a liberdade e a autonomia que ele se gaba de usufruir. Revelar a verdade do romancista é revelar a mentira de nossa própria literatura. A liberdade não pode se afirmar a não ser sob a forma de uma conversão autêntica. Tão logo o sujeito desejante percebe o papel da imitação em seu próprio desejo, ele tem que renunciar ao desejo ou renunciar ao seu orgulho, já que o desejo faz de nós escravos. Apreender a verdade metafísica do desejo é prever a conclusão catastrófica. Toda a literatura romanesca é arrastada pela mesma enxurrada, todos os heróis obedecem a um mesmo chamado em direção ao nada e à morte. A transcendência desviada é uma descida vertiginosa, um mergulho cego nas trevas. Ao renunciar à procura da divindade no ídolo, o herói renuncia à escravidão. Todos os planos de vida se invertem, todos os efeitos do desejo metafísico são substituídos por efeitos contrários. A mentira dá lugar à verdade; a angústia à lembrança; a agitação ao repouso; o ódio ao amor; a humilhação à humildade; o desejo segundo o Outro ao desejo segundo Si próprio, e a transcendência desviada à transcendência vertical. O herói triunfa no fracasso, ele triunfa porque esgotou seus recursos, é-lhe preciso pela primeira vez olhar de frente seu desespero e seu nada. Mas esse olhar tão temido, esse olhar que é a morte do orgulho é um olhar salvador. Tudo é dado ao romancista quando ele chega a esse Eu mais verdadeiro do que aquele que cada um vive exibindo. É esse Eu que vive de imitação, ajoelhado diante do mediador. Ao renunciar à divindade enganosa do orgulho, o herói se liberta da escravidão e se apodera finalmente da verdade de sua infelicidade. Essa renúncia não se distingue da renúncia criadora. É uma vitória sobre o desejo metafísico que faz de um escritor romântico um verdadeiro romancista. Na conclusão, o herói encontra a liberdade através da morte - real ou simbólica - ao morrer para o mundo, e através do afastamento das paixões e dos compromissos sociais - a lucidez sublime - encontra sua ressurreição.

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    4.6 / 29
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    René Girard

    René Girard é conhecido por suas teorias que consideram o mimetismo a origem da violência humana que desestrutura e reestrutura as sociedades, fundando o sentimento religioso arcaico. Girard se auto-define como um antropólogo da violência e do simbolismo religioso. Alguns o consideram o "Darwin das ciências humanas". Por meio de seus trabalhos de antropologia, ele teorizou o que é considerado uma de suas grandes descobertas: o mecanismo da vítima expiatória, segundo ele um mecanismo fundador de qualquer comunidade humana e de qualquer ordem cultural: quando o objeto de desejo é apropriável, a convergência dos desejos conflitantes em sua direção engendra a rivalidade mimética que é a fonte da violência. No grupo primitivo, esta violência, por paroxismo, se focaliza numa vítima arbitrária cuja eliminação reconcilia o grupo. Esta vítima é, para Girard, sagrada e constitui a gênese do sentimento religioso primitivo, do sacrifício ritual como repetição do evento originário, do mito e dos interditos. A obra de Girard desafia manifestamente a de Sigmund Freud no campo do desejo, bem como a de Claude Lévi-Strauss no que se refere à interpretação dos mitos e a de Karl Marx quanto ao determinismo econômico.

    27 Livros
    49 Seguidores
    Avignon, França

    René Girard