Criado nos Anos 1960, a década da contracultura, pelos lendários Stan Lee e Steve Ditko, Homem-Aranha marcou o início da desconstrução e humanização dos super-heróis. Um movimento que iria explodir cerca de vinte anos mais tarde em obras seminais como Watchmen, Dark Knight, Marshall Law etc.
Embora tenha sido originalmente publicada em 1986, o auge da Era de Bronze dos comics, quando as revolucionárias e polêmicas HQS citadas acima foram lançadas, Marandi não possui nada de revisional ou controverso em relação à mitologia do Cabeça de Teia. Todavia esteja longe de ser um gibi feijão com arroz deste medalhão da Casa das Ideias.
Mais dado a aventuras urbanas em becos soturnos ou eletrizantemente suspenso por suas teias artificiais nos arranha-céus de Nova Iorque, Peter Parker se vê completamente aturdido ao mergulhar em um terreno insólito em suas peripécias cotidianas: o mundo da fantasia e da magia.
Repentinamente o Amigão da Vizinhança troca batedores de carteira, ladrões de bancos e cientistas insanos por feiticeiros, maldições e aberrações lovecraftianas.
A bagunça bruxesca inicia quando nosso herói é auxiliado por uma adolescente descolada no momento em que está envolvido em uma briga com um trio de meliantes pés de chinelo.
A tal jovem se revela uma feiticeira chamada Marandi. Com mais de um século de existência ela é condenada a viver eternamente como uma teenager graças a uma maldição. Após transportar o Aranha para uma dimensão fantástica quase psicodélica que deixaria Neil Gaiman orgulhoso, a trama entra em modo turbo com Peter suando o uniforme aracnídeo para salvar a guria de uma monstruosidade bizarríssima e indestrutível digna das HQS de Spawn e Hellboy.
A cereja do bolo é que, apesar de nos mostrarem apenas um vislumbre deste mundo fantástico, os autores nos deixam com a curiosidade aguçada para explorarmos mais desta deslumbrante geografia e seus personagens. Que outras maravilhas e horrores poderiam habitar ali? Quais outras revelações viriam à tona caso o complexo relacionamento entre Marandi e seu pai, um bruxo maligno barra-pesada, fosse mais investigado?
Elogiar aqui o trabalho do grande Berni Wrightson (1948-2017) é chover no molhado para os entusiastas mais veteranos dos quadrinhos.
Artista símbolo do terror na Nona Arte, Wrightson deixou sua marca inconfundível em clássicos das HQS do gênero: Creepy, House of Secrets, Hellraiser etc. Foi co-criador, ao lado de Len Wein, do revolucionário Swamp Thing e ilustrou a novela Cycle of the Werewolf, a pequena pérola licantrópica de Stephen King. Especialista em monstros, Berni Wrightson era o desenhista ideal para dar vida às pirações visuais da roteirista de Marandi, Susan K. Putney.
A despeito de todo o currículo do ilustrador desta Graphic Novel, seria uma grande injustiça não comentarmos o criativo e singular texto de sua escritora.
Autora de ficção-científica, Putney engendrou uma trama simples, contudo eficaz, cujo maior destaque são suas imagens alucinantes. Porém, o que mais surpreende no roteiro é fazer com que as características do Homem-Aranha estejam sempre presentes mesmo em um cenário completamente atípico do usual em seus comics. Ora belos, ora aterradores, evocando quase que simultaneamente sensações de sonho e pesadelo, os visuais arrebatadores da obra não anula as particularidades deste ícone da cultura pop que há décadas vem encantando leitores do mundo inteiro. O cotidiano problemático de Peter Parker, o humor por vezes ingênuo deste, mas que quase sempre funciona, seu instinto de responsabilidade que é quase uma maldição. Continua tudo lá, mesmo enquanto o Aranha se debate entre as presas de criaturas dignas do horror cósmico.
É justamente esta ambiguidade temática de Marandi sua maior qualidade. Agradar ao mesmo tempo aos fãs dos tradicionais gibis de super-heróis e os leitores de HQS mais sofisticadas e fora da curva.