"Os Loureiros Estão Cortados" faz pensar na história da narrativa épica desde as origens gregas. Poderíamos levar a reflexão até ao remotíssimo poema heróico Gilgamesh, de flagrantes semelhanças com a epopéia homérica, e teríamos recuado ao esplendor da produção intelectual suméria, que se desenvolveu no terceiro milênio antes de Cristo. Mas de lá até a Ilíada e à Odisséia, a narrativa passou por turbulências. De Homero até nós, as conexões se alinham com maior nitidez.Embora seja uma figura esquecida, o francês Édouard Dujardin (1861-1949) influenciou muita gente. Ele foi um precursor da literatura modernista ao lançar mão do chamado "fluxo de consciência" – técnica narrativa calcada na introspecção e que seria consagrada pelo irlandês James Joyce e pela inglesa Virginia Woolf. Joyce creditava a Os Loureiros Estão Cortados sua inspiração em Ulisses.
Os Loureiros Estão Cortados -
Édouard Dujardin
fiz algumas anotações sobre o livro e vou compartilhar aqui também: - quando eu anotei "macho chato" numa fala do protagonista eu realmente quis dizer isso. daniel prince é muito chato. - o livro inteiro é em primeira pessoa e explora o monólogo interior. as vezes parece mais uma prosa poética, na verdade. não é um grande primeiro passo do modernismo ou sequer do fluxo de consciência - prince, na minha percepção, é bastante unidimensional - mas com certeza consigo observar os aspectos que prepararam o terreno para Joyce, por exemplo. gosto do tom desdenhoso e até mesmo contraditório da consciência do narrador (veja, usei uma só "consciência" aqui, porque é o que parece ao ler o livro). - há palavras que o autor seleciona para causar efeito de ambiguidade. acredito que Joyce tenha se inspirado um pouco nesse sentido de uma palavra que pode dizer mais do que seu próprio significado em suas obras. - os parágrafos de nove páginas são meu espírito animal. há alguns deles que há muita repetição de uma palavra específica; repetição de conversas ou eventos que acabaram de acontecer; descrição de coisas externas, como sons e movimento, e então a sensação através deles; recapitulação de personagens que não estão em cena (por exemplo, lea passa a maior parte do livro na narrativa sem sequer estar realmente ali). - estranhei de primeira ver que o livro é dividido em capítulos, mas, por ter sido publicado em folhetim, fez mais sentido. - em um dos capítulos, prince está lendo algumas cartas de lea e se lembra de algumas palavras exatas que escrevera. achei essa passagem bastante linear, mas é provável que Joyce tenha se inspirado com a quebra de narrativa - a alternância entre discurso indireto livre (ou quase) e cartas/bilhetes. na obra de Joyce, há capítulos que temos acesso ao diário do protagonista, por exemplo. - não gostei mesmo do protagonista. inclusive espero que a lea arranque cada centavo dele. you're doing great, sweetie. - senti que as marcas que indicam as falas dos personagens aparecem com mais frequência do meio para o fim do livro, mesmo sem grande marcação ou interrupção nos diálogos dos personagens. gostei bastante dos diálogos corriqueiros. - adorei a parte que o personagem principal dá uma cochilada. o parágrafo fica tão desconexo! mesmo sem saber diretamente que ele tinha caído no sono, deu logo pra notar. foi sensacional. - lembrei muito de Mrs Dalloway quando o personagem está andando pelas ruas. "a vida; a hora, o lugar, um entardecer de abril, Paris, um entardecer claro de sol se pondo". - amei uma frase do préfacio: "Ignorando o fim, a trajetória é tudo". é sobre isso.
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