Precursor da melhor prosa portuguesa do século XVII, Francisco Rodrigues Lobo revela-se, na Corte na Aldeia, filósofo e humorista de qualidade. Escrita para toda a gente, esta Corte na Aldeia reúne um grupo de amigos que, pelo gosto de conversar, sustentam ameno e familiar colóquio, despretensiosamente humanista.
Corte na Aldeia -
Francisco Rodrigues Lobo
Matérias proveitosas, engraçadas e cheias de galantaria
O livro está organizado em dezesseis diálogos entre cinco figuras principais, Leonardo, Lívio, D. Júlio, Píndaro e Solino, e ainda uma porção de outros que aparecem em situações para dar motivo de conversa ou maneira de ilustrar algum ponto. A linguagem do autor tem uma certa complexidade, principalmente na organização das frases, que aliás são até bem compridas, e possuem uma ordem que não se pode chamar de completamente didática. Não é raro encontrar frases como esta do quarto diálogo: Uma senhora, enojada por a morte de um seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como os mais costumam; a esta mandou visitar outra parenta sua por uma pessoa de autoridade que, entrando na primeira casa, a achou tão escura que, pegando-se às paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço de cego, a qual o levou por a mão té uma porta estreita, aonde havia um degrau alto, e ali soltou para passar diante, o qual não alcançou tão bem o degrau que não desse primeiro com as queixadas na ombreira da porta e, saído do perigo, o tornou a guiar a dona da mesma maneira té junto da camilha, aonde o tornou a soltar. Com este exemplo quero deixar claro que é necessária paciência para ler estes diálogos todos, mas digo logo que vale o esforço. Os diálogos tratam de todo tipo de assunto, com todo tipo de humores e uma enorme variedade de exemplos, anedotas e casos curiosos, tudo sob a ideia geral do que deve saber e como se deve comportar um cortesão. Imagino que desta obra qualquer um é capaz de tirar algo que lhe interesse. Como diz um dos próprios personagens num dos primeiros diálogos O melhor modo de escrever são os diálogos escritos em prosa, com figuras introduzidas que disputem e tratem matérias proveitosas, políticas, engraçadas e cheias de galantaria, sendo a primeira figura da obra do autor dela e esse que vá guiando e introduzindo as mais, que sejam apropriadas àquelas matérias de que hão-de tratar entre si. O dito serve também como uma síntese do que vai escrito nesta obra. Aqui vemos discussões acerca de tudo um; religião, amor, política, guerra, língua e muitas outras coisas. Menciono detalhadamente apenas o diálogo que mais me chamou a atenção, que trata sobre as novelas de cavalaria, mas que na verdade pode ser visto como uma discussão sobre o próprio ato de escrever ficção e qual seu uso e lugar na cultura. No fundo é um discurso bem interessante que em nada falta para ser crítica literária. Se por mais nada, Corte na Aldeia vale pela riqueza de ditados o amor tira os sentidos e o juízo quem se emprega todo em seus cuidados e casos curiosos do mundo antigo e moderno como o do escravo de Públio Catieno que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de seus bens, pola fidelidade com que servira, ele, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em que queimaram o corpo de seu senhor e morreu com ele, mostrando que estimava mais tal servidão que a vida e as riquezas que lhe deixava.
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