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    Para Ler o Pato Donald - Comunicação de massa e colonialismo

    Ariel Dorfman, Álvaro de Moya

    Paz e Terra
    1980
    135 páginas
    4h 30m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    3.2
    161 avaliações
    Leram284Lendo39Querem231Relendo1Abandonos13Resenhas12
    Favoritos0Desejados231Avaliaram161

    As histórias em quadrinhos (ou comics para os norte-americanos, bandes dessinées para os franceses e fumetti para os italianos), embora existam desde 1895, somente passaram a ser reconhecidas como importante meio de comunicação, ao serem "descobertas" por intelectuais europeus como Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Cesare Zavattini, Claude Lelouch, Damiano Damiani, Picasso, Fellini e outros. Dorfman e Mattelard, em Para Ler o Pato Donald comprovam como a Disney, com toda a sua galeria de personagens inteligentemente "dirigidos", tornou-se nossa habitual representação coletiva. No Chile, por ocasião do terremoto de julho de 1971, as crianças da cidade de São Bernardo mandaram revistinhas Disneylânidia a seus compatriotas de San Antonio, vitimados pela catástrofe sísmica. A atividade da empresa Disney, porém não se circunscreve às revistas de quadrinhos, mas em tiras diárias em cadeias de jornais, suplementos coloridos dominicais, filmes de animação de curta e de longa metragem, filmes com personagens "vivos", curta-metragens "educativos", programas semanais em televisão, documentários de longa-metragem, áudio-visuais, discos, venda de royalties, além dos decantados e turísticos parques de diversão Disney World e Disneylandia. Foi divulgado recentemente na imprensa que, depois da morte de Walt Disney, em 1966, o faturamento de seus empreendimentos comerciais havia crescido de 116 milhões de dólares para 329 milhões e que os lucros de 12 milhões haviam passado a 40 milhões de dólares. O império Disney, em termos de comunicação de massa é algo que provoca reflexão e - por que não dizer? - um pouco de susto também. No universo de Walt Disney, ninguém trabalha para produzir. Todos compram, todos vendem, todos consomem, mas nenhum desses produtos parece ter custado qualquer esforço. A grande força do trabalho é a natureza que produz objetos humanos e sociais como se fossem naturais. A origem humana do produto é sumariamente suprimida. O processo de produção desapareceu. A simetria entre falta de produção biológica direta e a falta de produção econômica não pode ser casual e deve ser entendida como um estrutura paralela única que obedece à eliminação do proletariado - a verdadeira origem dos objetos, ou no dizer de Gramsci, o elemento viril da história - , da luta de classes d do antagonismo de interesses. Walt Disney é um exorcista da história: expele o elemento reprodutor social (e biológico) e fica com seus produtos amorfos, sem origem, sem a miséria que esses produtos criam na classe proletária. Walt Disney e seus veículoas massivos de comunicação vêm funcionando há anos como lavagem cerebral de populações infanto-juvenis do mundo inteiro. E isso não é assustador?...

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    Maria Luíza picture
    Maria Luíza20/02/2026Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    "Pensasse que o homem, submerso nas angústias e contradições sociais, há de se salvar e alcançar sua libertação como humanidade no entretenimento..."

    Para ler o Pato Donald é um livro historicamente situado e precisa ser analisado com base em seu contexto, caso contrário pode ser entendido como paranóia ou exagero, como vi algumas pessoas descrevendo o livro. Tendo em vista que foi publicado no cenário chileno de 1971, logo após a eleição de Salvador Allende, o clima intelectual era bastante marxista, e o tom firme usado pelos autores foi proposital e necessário para o momento. Mesmo que o que é descrito não seja exatamente o que vemos hoje em dia nos meios de comunicação, a ideia central é correta e relevante: as mídias de comunicação e entretenimento são, muitas vezes, fortes ferramentas do imperialismo (no caso do livro, imperialismo estadunidense), sendo o Sul Global o mais afetado por esse imperialismo cultural. O livro aborda minuciosamente cada detalhe dos quadrinhos da Disney estudados, traz características dos personagens e o que eles representam na vida real. De acordo com a pesquisa, as historinhas da Disneylândia fortalecem ideias acerca da supremacia estadunidense e da suposta inocência burguesa em relação aos problemas sociais por meio do apagamento do processo de produção e do proletariado e de estereótipos dos povos marginalizados e da classe trabalhadora. São muitas as análises feitas. Uma reflexão trazida pelo livro que me interessou muito foi a de que os países periféricos são propositalmente (e de forma mal intencionada) tratados pelos Estados Unidos como dependentes e incapazes, como crianças (essa relação é feita entre os personagens e o mundo real), e por isso deveriam ser ensinados e seus comportamentos deveriam ser orientados. Isso é muito visto na atualidade (inclusive no caso da Venezuela). Uma crítica que eu tenho é que os autores (pelo menos no meu ponto de vista) parecem apagar o potencial do Sul Global de perceber e enfrentar o imperialismo, colocoando-o como agente meramente passivo. Porém, eu entendo que essa perspectiva tenha sido necessária, na visão dos autores, para a luta política chilena da época. Eu gostei da leitura, ela é bastante didática e fácil de compreender. Para quem tem interesse em entender melhor a história do Chile ou se aprofundar nos estudos sobre imperialismo cultural e comunicação de massa, esse livro é uma ótima ferramenta. Demorei para postar essa resenha porque precisei fazer um resumo bastante grande do livro para colocar as ideias no lugar.

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    Ariel Dorfman profile picture

    Ariel Dorfman

    Vladimiro Ariel Dorfman é um romancista, dramaturgo, ensaísta, acadêmico e ativista pelos direitos humanos argentino-chileno-americano. Cidadão dos Estados Unidos desde 2004, é professor de literatura e de estudos latino-americanos na Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte, desde 1985

    19 Livros
    5 Seguidores

    Ariel Dorfman