O mundo da diplomacia é complexo e formando por muitos funcionários de carreira que ascendem, estabilizam ou derrocam conforme desempenho próprio ou conveniência de superiores. Ministro de primeira classe, que é embaixador. Ministro de segunda classe, Conselheiro, Primeiro-secretário, Segundo-secretário, Terceiro-secretário formandos pelo sacrossanto Instituto Rio Branco em Brasília. Função primordial dos diplomatas de todos os escalões é representar a terra pátria no exterior, articulando assuntos de interesse bilateral ou multilateral.
Em O Punho e a Renda do escritor e diplomata brasileiro Edgard Telles Ribeiro conta de modo ficcional, assim ele enfatiza, mas eu desconfio um bocado disso, do mundo diplomático durante a ditadura militar que começou com golpe de 1964 e que oprimiu o Brasil por mais de duas décadas.
O narrador do livro descreve seu inicio no Itamaraty, que é o apelido do nosso Ministério das Relações Exteriores, como diplomata júnior. E em um dia marcado como o mais triste da historia brasileira recente, a emissão do Ato Institucional Número Cinco, ele é convidado para almoçar por uma estrela do corpo de funcionários do Ministério. Ali nasce uma amizade baseada mais na admiração intelectual mutua do que na compatibilidade de personalidades.
Max que é a estrela brilhante, sedutora, atraente e invejada, tem uma escalada rápida, devido a uma oportunidade bem aproveitada, na diplomacia nacional e é escalado para servir a nação num posto no Uruguai. Lá ele é logo adotado pelo embaixador que está quase de partida para a capital brasileira onde exercera influencia sobre o ditador. Mas antes de ser substituído arruma a casa de modo a poder continuar com o seus planos para a América do sul.
Plano esse que seria aplicar o modelo de governo militar aos países vizinhos. Nisso entra toda a sorte de conspirações e espionagem que realmente aconteceu no período. Max era o intermediário, que articulava os contados com os militares e empresários sul-americanos. E também araponga, termo da época, da CIA e do MI6.
O romance tem como linha geral de construção seis longos diálogos que atravessam capítulos inteiros. Dois com Max, em períodos bem separados no tempo e com mudança nítida de tratamento. Um com desprezo por saber que o colega trabalhou ativamente e por vontade própria para o regime militar e outro por ter que reconhecer que os atos execráveis foram esquecidos e, além disso, renderam futuros prêmios profissionais. Com Marina que foi esposa de Max, vemos como a garota rica se entusiasma com a possibilidade de fuga da vida protegida e entediante, mas no final é um desterro rodeado pelo séquito da Embaixatriz. Ainda tinha o medo do exilados que a evitavam pela a associação com a repressão. Ela entrou num circulo de filhos, drogas, bebida e a culpa de ter dividido a cama com um colaborador.
Duas outras figuras vêm como pretexto para situar as informações censuradas e confidenciais que circulava a boa pequena na época. Um adido militar que gostava de conversa muito quando comia e bebia bem, dele se sabe boa parte das incursões subterrâneas de Max. E outra, de um agente aposentado da CIA que revela o mirabolante plano Brasileiro de conseguir a tecnologia nuclear bélica.
Edgard Telles Ribeiro escreve no começo do livro aquele lembrete que está no final dos créditos dos filmes. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é pura coincidência. Logo de inicio eu percebi que o personagem central, Max, é uma mistura de varias pessoas que ele deve ter conhecido no período. Acredito que juntou funções e características de muitos atores obscuros e famosos num único ser multifacetado neste livro. No caso de Marina, além de pintar a simbólica figura feminina aristocrática que só deve estar impecavelmente vestida e organizar festa de recepção memoráveis, tem a solidão cultural e o flerte com experiências pouco condizentes com condição de esposa de diplomata. Ali eu vi algo bem pessoal do escritor, que como já falei é diplomata. Acho que ele reuniu no livro o que viu, ouviu e participou, mesmo que levemente, no serviço diplomático. E muito detalhado para ser invenção pura.
O golpe de Estado no Brasil derrubou em abril de 1964 o governo de João Goulart. A ditadura civil-militar no Uruguai começou em junho de 1973. No mesmo ano houve o golpe de Estado no Chile que matou o presidente eleito Salvador Allende. O que liga esse três eventos foi à participação ativa da CIA que incentivou o medo a ameça a comunista e desestabilizou os serviços de base nesses paises. Com os regimes instituidos a Central Intelligence Agency treinou a policia de repressão nas tecnicas de obtenção de informações. Tortura e vigilancia preventiva, coisa que os sulamericanos pegaram gosto e inventaram novos metodos. Operação Condor foi um roteiro saido de Hollywood, mas teve aplicação real...