Primeiros passos (de um gênio)
Já na primeira página, há a clássica pessoalidade do narrador russo, que assume-se como narrador e molda a história a partir disso (Machado de Assis fazia isso aqui no Brasil, e acho que é daí a morada de sua genialidade, - por mais que já fosse uma artimanha narrativa tipicamente russa, muito antes do nosso conterrâneo); por mais que não seja uma artimanha muito bem usada. Na verdade, nada neste livro é bem usado. Há obras literárias das quais os personagens as sustentam (Dom Casmurro; Brás Cubas…); há obras literárias que os personagens são desprezíveis, mas estão ajambradas de uma forma que não é necessário simpatizar com eles, o mundo criado pelo autor suficientemente poderoso para sustentar uma trama de livro (o caso dos livros de Lourenço Mutarelli, Elena Ferrante); acontece que, aqui, se enquadra no primeiro caso, - só que os personagens são terríveis. Os personagens são burros e egoistas. Entendo aquele discurso de dizer que *o ser humano é burro, então os personagens são humanos*; mas aqui é outro nível. Albinus é o tiozão caído por uma novinha (Margot), que decide largar a mulher e a filha (Elizabeth e Irma) para carcar a *quase-di-menor*; só que ele parece não perceber que é traído múltiplas vezes (as vezes me pego pensando se ele não fingia este estado soporífico); e, a mulher transgressora, por sua vez, é chata e igualmente burra, - além de extremamente superficial. Em contrapartida, admito que gostei da narração (Nabokov muda de perspectiva, de núcleo, de maneira exímia), e acho que o livro vale neste viés. É interessante para fãs do autor. Parece um precursor do que ele desenvolveria em Lolita, - so que, aqui, a qualidade não chega aos pés da sua Magnum Opus.

