Embora tenha lido várias críticas a respeito do livro, considero a obra de Bayard como inovadora e riquíssima. Na verdade, acredito que aqueles críticos que acusaram o escritor de querer denegrir o processo de leitura, de incitar à não leitura, na verdade não souberam ler e muito menos captar a proposta de Bayard.
Verdade que o texto lida com a hipocrisia que circula por todos os leitores e com os tabus que perpassam o ato de ler, ou seja, a vergonha de dizer que "não leu" ou que abandonou determinado livro.
Ao meu ver, "Como falar dos livros que não lemos?" é um tratado semiótico ("toda leitura é uma não-leitura") que tem o mérito de trazer às discussões dois pontos fundamentais: (1) os livros que lemos não são somente aqueles que começamos na página 01 e fomos até a última, sem pular nada, pois "os livros que folheamos, os de que ouvimos falar, os que esquecemos incluem-se, em diversos graus, nessa categoria muito rica de não-leitura" (p. 17); (2) mais importante que um livro sozinho, é a relação entre livros (o que o autor chama de biblioteca) que importa, a sua situação e o contexto.
Achei sensacional a proposta do "jogo da humilhação" (p. 143) que pode, inclusive, ser aplicado em outras esferas da nossa vida: viagens, cidades, filmes, músicas...
Enfim, acredito que Bayard busca nos libertar daquela sensação sufocante que todos leitores compulisivos possuem (eu incluso); a saber: a consciência da impossibilidade física/mental/temporal de ler todos aqueles livros que desejaríamos! ... por isto, paradoxalmente, a leitura de um livro intitulado "Como falar dos livros que não lemos?" serve como uma sessão de análise terapêutica e como uma declaração de amor ao universo dos livros.
Embora o autor busque categorizar diferentes modelos de relacionamento com os livros (biblioteca coletiva, interior, virtual; livro interior, encobridor, interior coletivo; desleitura; livros fantasmas...), a leitura é divertida, ilustrada e leve. Recomendo a todos, já que tem tudo a ver com o Skoob.