“Você foi considerado culpado de um delito punido pelo parágrafo 175. A luxúria entre homens é todo comportamento que seja contrário à moral e acarrete na ação de um no corpo do outro, no caso, masturbação mútua. Você não pode se escudar em seu instinto mórbido para justificar suas dificuldades de abandonar a prática sexual com homens. Só podemos exigir de você um controle melhor de si mesmo. Você, um estrangeiro nascido na Alemanha, deveria ter feito de tudo para reprimir esse instinto antinatural, uma vez que sabemos qual é o perigo que a luxúria entre homens representa para todo o povo alemão! De qualquer modo, é isto que justamente exigem de todos e qualquer um os bons costumes deste país. A pena que lhe foi imposta leva em consideração, por um lado, a duração prolongada de suas relações antinaturais (mais de dois anos) e, por outro, o fato de que elas se limitaram à uma única pessoa com a mesma orientação sexual que a sua. Você limitou, assim, a propagação desse mal contagioso. Em vista da natureza desses fatos, os seis meses de prisão sentenciados nos parecem satisfatórios.”
(fala do juiz ao pronunciar a sentença do julgamento de Rudolf Brazda em 14 de maio de 1937)
“Se continuarmos assim, nosso povo corre o risco de ser aniquilado por essa praga.”
(Discurso feito pelo Reischerführer SS Himler, referindo-se à homossexualidade, em 18 de fevereiro de 1937)
Acredito que não exista nenhuma outra “unanimidade” tão grande quanto a repulsa ao nazismo. As atrocidades cometidas durante os anos da segunda guerra mundial são exemplos que a humanidade guarda de como não agir em relação aos outros. Perseguições e discriminação motivadas por preconceitos raciais, políticos e, também, sexuais.
E é um pedaço dessa história que encontramos no livro “Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista” de Jean-Luc Schwab a partir das narrativas de Rudolf Brazda e, obviamente, uma apurada pesquisa histórica, lançada há pouco pela Mescla Editorial. (Os trechos acima são parte do livro)
Mas, o que mais me chamou atenção no livro, por incrível que pareça, não foram os horrores descritos por ele, afinal já existe uma produção cinematográfica abundante que nos mostra, literalmente, como foram difíceis aqueles tempos (A Lista de Schindler é um “documento” que deveria ser estudado nas escolas).
O que mais me chamou atenção no livro são os discursos utilizados pelas autoridades nazistas para condenar Rudolf Brazda (e mais 50 mil homossexuais deportados) pelo seu “crime”. A maneira como a “moral” de uns foi (e ainda é) imposta aos outros (mesmo que a “imoralidade” tenha sido praticada somente por “iguais”).
Um discurso que vemos ser reproduzido ainda hoje, seja na Uganda (esse país tão subdesenvolvido), seja pelos nossos nobres deputados, que teimam em infligir aos homossexuais uma pecha de “destruidores da moral e dos bons costumes”. Que teimam em associar (como se fazia na época nazista) a homossexualidade à pedofilia, à zoofilia e à “destruição da família”.
O mais irônico de tudo é que os “defensores da moral e dos bons costumes” insistem em associar os ativistas gays aos nazistas (nos acusando de tentar criar uma ditadura homossexual), criando uma lógica tão impossível que só faz sentido dentro da linha de raciocínio deles. Essa linha de raciocínio torta que cria momentos tristes na história da humanidade… tais como, o próprio nazismo.