O homem é o prisioneiro do homem
Alguém já disse alguma vez e eu repito: a memória é um conjunto infinito de labirintos. É por isso que É isto um homem?, exemplar máximo da literatura de testemunho, é essencial. Afinal, como recordar em palavras um dos períodos mais violentos da história humana? O químico Primo Levi, judeu italiano sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, mostra neste relato impressionante a pequenez humana. Mostra como a liberdade, o bem maior que todos almejamos, pode ser usurpada diante de nossos olhos sem a menor possibilidade de reação. Ao narrar com tremendo esforço e invejável compromisso ético seus dias no inferno nazista, Levi oferece aos leitores, sem juízo de valor algum, uma reflexão sobre a humanidade. O que é o progresso, a ética, a justiça e a política em meio à desumanização? Em meio a um contexto de caos e extrema violência, em que o homem livre é inexistente, Levi consegue nos mostrar que esses conceitos não passam de palavras ou signos em desuso. Para além de relatar o cotidiano em Auschwitz, em analisar o declínio da humanidade perante seus próprios olhos, Levi deixa como legado em É isto um homem? a necessidade de preservar a memória. O testemunho de Levi é, portanto, a preservação do coletivo. O coletivo que sofreu, morreu e constantemente é alvo de uma tentativa de esquecimento, de apagamento. Porque a pergunta que dá título ao livro é um questionamento sem conclusão simples: o homem é o mesmo que matou milhares de judeus, mas também é o mesmo que sofreu com a perda da identidade nos campos de concentração nazistas. Portanto, o homem é uma incógnita. Após a leitura de É isto um homem?, me atrevo a pensar que a clássica frase de Thomas Hobbes, o homem é o lobo do homem, merece uma ressignificação: o homem é o prisioneiro do homem. Porque Primo Levi foi - e ainda é - a voz de quem foi silenciado e a nós, meros leitores, basta escutá-lo.









