“- Ninguém pode saber verdadeiramente o que está no coração de outro homem.”
Quando a vontade de ler, Eon – O Décimo Segundo Dragão, de Alison Goodman, começou a despertar em mim, eu não tinha visto nem a capa.
O desejo nasceu por causa dos comentários da Bell, do Nem um Pouco Épico. Não cheguei a ler resenhas, nem mesmo a sinopse. Confiei em sua opinião e não sosseguei até ter o livro em mãos.
EON foge do óbvio mundinho dos YA Books atuais. Apesar de tratar de alguns de seus temas, não é “mais do mesmo”, como diz a Alba Milena. Eu não sabia o que esperar dele e certamente não imaginei que a história pudesse me prender tanto. São 474 páginas de fantasia.
Terminei de ler ontem à noite e não consegui dormir depois. Fiquei pensando na história, na política por trás da história, no jogo de interesses e na capacidade da autora de criar um mundo completo diante do leitor.
Quantas vezes começamos a ler um livro de fantasia e acabamos nos perdendo porque não conhecemos a política, história e cultura do mundo criado?
Não é o que ocorre em EON, pelo contrário. A autora constrói o mundo aos poucos em nossas mentes. Explicando calmamente história, política, cultura e muito mais. Passamos a fazer parte da fantasia e entendemos o comportamento dos personagens tranquilamente.
É claro que isso tornará o livro mais lento. Demorei mais tempo do que costumo para ler. O livro é ótimo, mas deve ser apreciado e não engolido.
“Mulheres não tem lugar no mundo da magia dos dragões. Acredita-se que elas tragam corrupção à arte e não tenham força física ou a nobreza de caráter necessárias à comunhão com um dragão de energia.”
Eon é Eona. Ela esconde seu sexo há quatro anos. Precisa agir como menino. Mulheres são menosprezadas e consideradas fracas nessa sociedade. Ela ouviu tanto que as mulheres não são dignas que acredita nisso de coração e se esconde. Sentimos seu dilema claramente na narrativa em primeira pessoa.
Imaginem como é horrível não mostrar seu verdadeiro eu? Ser forçada pela lei da sobrevivência a ser outra pessoa. O leitor sofre junto com ela. É visível o quanto ela tenta fazer o certo e o quanto isso é desgastante.
“Algumas coisas deveriam permanecer guardadas.”
No começo da leitura, lembrei de Mullan, mas durou pouco. O que acontece com Eona é mais cruel. Além de ser mulher, ela tinha uma deformidade no quadril, o que a torna ainda mais desprezível aos olhos dos homens. É mais seguro e necessário ser Eon. Isso não quer dizer que ela seja uma desistente. Não, Eon é um lutador. Eona é uma lutadora, uma sobrevivente. Ela apenas cede e acredita que é melhor continuar “sendo” homem.
Superação é uma palavra-chave nessa história. Alguns personagens não eram aceitáveis por ser quem eram e ainda assim eles lutavam. Aqueles que eram considerados os mais fracos eram os que mais se esforçavam para fazer o certo.
Gostaria de poder falar de vários personagens, mas há tantas surpresas que prefiro deixá-los descobrir sozinhos. Adianto que são bem-construídos, complexos, esféricos. Apesar da fantasia, você verá pessoas e sentimentos reais.
A esperança de muitos é que Eon/Eona consiga se conectar e usar o poder de um determinado dragão, mas o livro irá muito além disso. Amizade, rivalidade, sobrevivência, preconceito, lealdade, traição e muita ação ajudarão a formar o contexto.
“- Homens também enxergam a amizade como um laço poderoso, Sua Alteza. – comecei a dizer, sentindo o capricho dos deuses no meu papel repentino de autoridade em assuntos que se referiam à masculinidade – Mas não é algo que decorre de ordem, e a confiança é um centro que pode demorar muito para ser alcançado.”
Laços de sobrevivência mútua misturados com amizade começam a ser desenvolvidos entre Eon e o Príncipe Kygo. Talvez isso terá mais destaque no próximo volume da série, EONA.
Quando terminei de escrever a resenha, fui ler outras e descobri que algumas pessoas reclamaram que não tinha romance, então resolvi acrescentar mais esse trechinho.
Puxa! Eu vi romance para todo lado. Várias inclinações e momentos que diziam muito mais do que estava escrito. Aprendam a ler as entrelinhas, queridos. Nem tudo é escancarado.
Recomendo muito a leitura.