Esta é uma baita HQ!, escrita e ilustrada por Joe Sacco, jornalista nascido em Malta e radicado nos Estados Unidos.
Inconformado com o jeito como a Imprensa estadunidense abordava a questão palestina, sempre mostrando apenas a perspectiva israelense, Sacco resolveu passar dois meses entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, no final de 1991 e início de 1992. O que ele queria era simplesmente documentar a perspectiva dos palestinos, sujeitos sem voz e sem rosto, ignorados e/ou demonizados pela mídia e, consequentemente, desconhecidos pelo povo ocidental. Não podemos esquecer que o sionismo vendeu a ideia de que lá era uma "terra sem povo para um povo sem terra". Só que havia um povo, e uma cultura... mesmo que estivessem sendo invisibilizados.
Quando quem está no poder quer retratar um "inimigo", dele são tirados seus traços humanos, seu rosto, sua voz e seus direitos. Essa sempre foi a forma encontrada de justificar e facilitar a morte ou o extermínio, sem se deixar dominar por sentimentos de horror e culpa.
Assim foi feito com escravos, com judeus, com soldados, e assim ainda é a prática quando vemos um outro, um diferente, e o entendemos como perigoso e, consequentemente, como inimigo. Na maioria das vezes essa prática esconde interesses econômicos e preconceitos enraizados.
Nessa edição da HQ temos um texto introdutório de Edward Said e um prefácio de José Arbex Jr., além de reflexões do autor e fotos das suas anotações e registros. A história narra a própria experiência de Sacco, ele, então, é o protagonista. Os personagens que aparecem são pessoas reais e suas falas estão praticamente reproduzidas.
A importância desse livro é que Joe Sacco fez, através dos quadrinhos, o que era papel da Imprensa em sua busca pela "neutralidade": dar rosto e voz para ambos os lados. Ele não fez da sua HQ algo panfletário, ele simplesmente mostrou o que viu e ouviu, sem passar pano pra ninguém. Não mostrou o lado israelense, é verdade, simplesmente porque não era necessário, já estava amplamente feito. Escolheu mostrar o que estava escondido, nas sombras.
O resultado é uma HQ desconfortável, amarga, triste e, às vezes, irônica. Sacco temeu o tempo todo pela própria vida, se sentiu impotente, e isso fez com que tivesse um olhar crítico sobre o seu próprio papel nos conflitos. Afinal, Sacco estava lá a trabalho, poderia ir embora a qualquer momento, enquanto os outros eram prisioneiros daquela situação. Fazia sentido ganhar dinheiro e reconhecimento mostrando a tragédia dos outros? A consciência desse privilégio traz para a HQ, em alguns momentos, um sentimento ácido de vergonha e de impotência, um humor negro desconfortável.
O importante, a meu ver, é que o autor quis estar presente, teve coragem de ser testemunha. E fez isso usando de seu talento para desenhar, de sua sensibilidade para ouvir e documentar. E com seu trabalho furou bolhas, o que apenas a linguagem dos quadrinhos poderia fazer. Trata-se, então, de um excelente livro-reportagem.
O que os textos introdutórios dessa edição mostram é que a arte dos quadrinhos busca a subjetividade, enquanto o jornalismo busca a objetividade. O que parecem ser, à princípio, caminhos opostos, na obra de Joe Sacco são caminhos que se encontram, dialogam e se completam. Sem perder a essência sensível da arte, o livro cumpre, com dignidade, a função jornalística e social.