A Visão de Deus -

    Nicolau de Cusa

    Calouste Gulbenkian
    2010
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-10: 9723104016
    Português

    Depoimentos e textos de Nicolau de Cusa (1401-1464) - Bispo de Bressanone e Cardeal da Cúria Romana, tendo chegado a desempenhar funções de Vigário Geral do estado Pontifício em 1458. Viveu em tensão permanente entre uma atividade eclesial intensa (tanto nas dioceses alemãs, na qualidade de enviado pontifício, como na sua diocese) e uma densa especulação filosófico-teológica, que mergulha as suas raízes na mística eckhartiana e se refletiu numa vasta obra em que se destaca o 'De docta ignorantia'. Considerado um dos antecipadores da moderna metafísica do sujeito, o seu pensamento ecoará no romantismo alemão e no próprio idealismo hegeliano.

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    Filino Carvalho Neto picture
    Filino Carvalho Neto12/03/2020Resenhou um livro
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    Excelente obra - de filosofia, teologia e mesmo de poesia

    A obra tem como ponto de apoio um episódio curioso: o envio, por parte do autor para amigos, de uma pintura em que o "ícone de Deus" acompanha, com os olhos, todo aquele que o fitar. A partir daí é que se desenvolve a reflexão presente em "A visão de Deus". Nicolau de Cusa, a partir do ícone, demonstra como Deus (que está além do finito e do infinito) acompanha todos e cada um dos seres. E servindo-se daquela imagem, bem ilustra isso: não importa que um homem, observando o ícone, parta da esquerda para a direita, e outro homem, que também o observa, ande em sentido contrário simultaneamente: ambos são "observados" pelo ícone. O autor tem ciência plena que se trata de uma ilusão conferida pela pintura,  mas que explica o que seria um dos "atributos" (em linguagem aproximada) de Deus. Na mesma direção de uma teologia apofática (lembrando o Pseudo-Dionísio), o autor ressalta a impossibilidade de se fornecer um conceito sobre a natureza divina e os limites do intelecto humano. Quando muito, podemos chegar aos muros do Paraíso, onde os contrários coincidem, mas não ultrapassamos essa fronteira. Surge então Jesus Cristo como mediador, trazendo em si a natureza humana e a divina, mas não como se houvesse uma divisão entre ambas. Também isso é tratado pelo autor. Sobre a edição em si, é de se sublinhar que o prefácio (escrito por Miguel Batista Pereira) é perfeitamente dispensável. Em que pese o conhecimento do seu autor, soa um tanto deslocada para essa edição. A introdução (escrita pelo tradutor João Maria André), pelo contrário, é extremamente didática e traz ótimos esclarecimentos sobre o autor e a obra. "A visão de Deus" não apresenta grandes dificuldades para o seu leitor, ao contrário da "Douta ignorância". Também traz passagens belíssimas, de uma riqueza poética cativante.

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