Li o romance de estreia do Caio F., simultaneamente ao livro (póstumo) A VIDA GRITANDO NOS CANTOS, que reúne suas crônicas desde o ano 86 até o ano de sua morte.
Para quem, apesar de já ter na sacola uma boa bagagem de leitura, não conhecia Caio F., melhor cartão de visitas não poderia haver.
Romance de formação, de uma angústia tão palpável que chega a doer na pele, LIMITE BRANCO foi escrito por Caio, mal este completara 19 anos.
Subjetivo, intimista, o romance nos apresenta Maurício, cuja voz ainda adolescente reconstrói com uma nitidez lânguida e ao mesmo tempo exata, as próprias aflições, descobertas, descaminhos, desencontros, e encontros.
Suas reminiscências, o revoar da memória, o prazer descoberto, o day after compõem um mosaico que aprisiona. São "partículas elementares" que capturam o olhar do leitor. Alguém dirá (com razão), que são inquietações comuns, inerentes de quem ainda não fincou os pés na maturidade. Mas o difícil mesmo é transpô-las para o papel como o escritor gaúcho fez.
Foi o começo de Caio F., e inegável a influência de Clarice Lispector em Caio, mas não é só isso que o define.
O que define LIMITE BRANCO, enquanto obra legítima de um escritor até então iniciante, é a certeza de que ele já sabia muito bem o que queria fazer com as letras, não obstante suas incertezas; sua consciência de que poderia transformar palavras em partículas sonoras, irmanadas pelo ânimo capaz de construir uma razão para a máxima de Lispector: "perder-se também é um caminho."