A formação da classe operária inglesa é, provavelmente, o trabalho do pós-guerra mais criativo da história social inglesa. O estudo sobre a sociedade de artesãos e da classe operária nos seus anos de formação, de 1780 a 1832, acrescenta uma importante dimensão à nossa compreensão do século XIX. Thompson não vê o povo da Inglaterra como dado estatístico ou como vítima da repressão política e alienação industrial: para ele a classe operária inglesa foi parte definitiva na sua própria formação.
A Formação da Classe Operária Inglesa (A Formação da Classe Operária Inglesa #1) - A árvore da liberdade
E. P. Thompson
Primeiríssimas origens do movimento operário inglês
Ao invés de esperarmos uma clássica história do movimento operário partindo da Revolução Industrial e de suas consequências sobre a vida dos trabalhadores, o autor nos apresenta uma história totalmente diferente. Acaba se baseando nas tradições religiosas dissidentes e nas sociedades que lutavam por liberdade nos anos de 1790. O mais interessante nesse livro para mim foi observar os detalhes historiográficos que o autor vai apresentando em sua narrativa e as relações que vai fazendo com o movimento operário do século XIX. Ao iniciar a leitura do texto, esperava que fosse enfadonha e academicista, mas encontrei uma leitura fluida e detalhista. A narrativa me envolveu e as relações com o movimento operário futuro foi o que mais me atraiu. A melhor parte do livro foi o prefácio, em que o autor traz sua concepção de classe social como relação e experiência, muito diferente das abordagens marxistas estruturalistas tradicionais. De fato, todo mundo esperava que uma história da classe operária na Inglaterra tivesse relacionada ao movimento cartista, de 1832. Thompson volta mais pra trás e remete a 1790, que é quando pela primeira vez, os trabalhadores ingleses começam a expressar uma linguagem própria para se definir como classe. Mas essa linguagem não era na forma de movimento social ou sindicato. Ela era cruzada por várias outras tradições, inclusive religiosas. Ou seja, dialogava com o que eles viviam. Em outras palavras, a classe não nasceu pronta, ela foi se tornando agente do seu próprio "fazer". Foram os sujeitos que criaram a linguagem de classe e suas formas de expressão e consciência específicas (como sindicato, partido, movimento etc). E isso tudo remete a um termo: EXPERIÊNCIA! O constitutivo da classe trabalhadora não foram as relações de produção ou as forças produtivas no abstrato, mas sim como os sujeitos entendiam isso a partir do que viviam. Entendiam não porque um teórico tirou da cartola a teoria que ia salvá-los, mas porque eles viviam e sentiam o capitalismo em sua origem. E porque percebiam que sua linguagem, seus costumes, seus hábitos, não eram suficientes para dar explicação para aquele novo tipo de exploração que vivenciavam. Thompson olha para como os trabalhadores enxergaram suas próprias experiências na época e, mais do que positivo ou negativo, eles ressignificaram todo o seu mundo. É, portanto, na experiência vivida que as relações produtivas se concretizam, tanto quanto é na experiência vivida que o amor se concretiza. A luta de classes, dessa forma, não é um chamado de batalha, em que os exércitos se perfilam um de frente para o outro, mas sim, luta constante, ora aberta, ora velada, onde os sujeitos realizam a grande síntese marxiana. O significado político desse livro é quw qualquer projeto político invariavelmente precisa estabelecer uma relação dialógica com o que as pessoas vivem, sentem, experimentam. Sem isso, é só abstração, só metafísica e pouco materialismo. A teoria revolucionária é importante, claro. Mas sem ser dialógica, ela é só abstração, ininteligível na maioria das vezes. É essa ponte entre o vivido e o pensado que as novas linguagens, hábitos e culturas de classe se desenvolvem. (Fernando Pureza)
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