Nove Noites, saído no Brasil em 2002, foi galardoado com o prémio literário Machado de Assis. Uma história real e a figura fascinante do jovem antropólogo que a protagonizou levam o narrador a seguir-lhes o trilho: em 1939, o antropólogo americano Buell Quain suicida-se no Brasil, perto de uma aldeia indígena onde viveu algum tempo isolado entre os índios, as circunstâncias dessa morte horrível (cortou-se barbaramente antes de se enforcar) nunca foram esclarecidas. É esta a história verídica que suscita a pesquisa do narrador que lhe irá revelar paralelos com a sua própria vida.
Nove Noites -
Bernardo Carvalho
Isto é para quando você vier
Na terra cujo herói matou um milhão de índios. - Mano Brown O livro é um desafio. Daqueles desafios que todo leitor preocupado com a forma e a própria conceituação de narrativa, gostam de adentrar. Juntando os escombros de dois narradores completamente diferentes, tenta-se reconstruir o passo-a-passo de um suicida, como também contextualizar os ambientes nos quais ele frequentou. Existe um motivo para o suicídio? Por mais que essa pergunta ronde a narrativa e seja seu ponto de partida, no fundo, ela não importa tanto. O fim, se é que há algum, é apenas a quebra, o estilhaço daquilo que foi construído por fragmentos opacos e volúveis. No meio do embaralhamento das narrativas, todas as cartas estão manchadas de sangue. Assim como as memórias, tão inconfiáveis quanto a linearização e conexão entre recortes de jornais, cartas, testemunhos Sujo além do sangue, do caráter subjetivo de nossas relações empíricas de mundo. Tudo é questionado. Ou, melhor, tudo seria ficção? Neste amálgama entre ficção e realidade, a própria memória é um ponto a ser questionado, pois tem caráter fugidio e inventivo. Se, preenchemos lacunas nos nossos fragmentos de memórias, o livro também tenta preencher lacunas deixadas por um suicídio aparentemente sem motivo, como também convida o leitor a tentar preenchê-las. E ainda sim, continuamos pisando sobre a impossibilidade de encontrar uma resposta. Chamam esse livro de uma metanarrativa histórica/metaficção historiográfica, se é ou não, o fato é que essa obra de ficção, contundentemente questiona a própria ficção, questiona a nossa capacidade de contar histórias e a ideia de narrativa. Sabemos que movimentos que colocam toda a ideia de literatura em xeque, não foram necessariamente uma invenção do século XX e da Modernidade, mas é nesse tempo que se eclodem os mais diversos autores para colocarem isso em pauta, em foco. Se aqui no século XXI, quase não há capacidade de inovação, existe a possibilidade de sacar a complexidade rarefeita da narrativa moderna (ou pós-moderna, como queiram) e, utilizando de seus artifícios, jogar luz sobre um problema que existe desde o descobrimento do Brasil, que na verdade não foi descoberto, foi invadido. Para isso, terá que desenterrar demônios que às vezes tentamos esquecer e esquecemos. E nós, como seres sociáveis, e como personagens de nossas histórias muitas vezes embrutecidas pela dor, caminhamos por esse campo de sangue, edificando cidades para esconder necrópoles. Os mortos e os mistérios continuarão magnetizando-nos, seduzindo-nos. Por isso, virão mais narrativas como essas, pois, nossa curiosidade é mórbida. Venha leitor, adentre no mistério insolúvel e vibre com o sangue.
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