Uma busca escatológica pela sua "Rosebud".
Lourenço Mutarelli é uma das descobertas mais sensacionais que fiz recentemente (vergonhoso já que o cara tem uma carreira artística razoavelmente antiga). A minha experiência com HQs e livros com o autor, até o momento está fantástica. Dotado de um estilo que remete muito à literatura marginal com ecos de beatnik e de autores na linha Philip Roth e Paul Auster (esse eu nunca li, mas lendo entrevistas do auto, podemos entrever que Lourenço Mutarelli o adora. Inclusive o personagem principal o referencia no livro ) o autor consegue ter uma verve própria dentro de todas as influências que o compõem. Em o Cheiro do Ralo, o autor cria um personagem extremamente desagradável, mas fascinante. Um personagem vazio, cruel, indiferente e asqueroso, mas que desperta o nosso interesse para sua jornada em busca do seu "Rosebud". Por meio de uma narrativa afiada, ágil, certeira e por vezes escatológica (no sentido literal da palavra), o autor nos conduz em meio a uma série de eventos que vão desde situações tão insanas, que me tirou risadas, até ao niilismo total. A palavra que melhor encontro para resumir a sua narrativa é perversão. É o desvirtuamento de elementos que caracterizam uma jornada em busca dos seus objetivos. Um puro anti-romance.Tudo aqui é sujo, precário, perverso e a redenção que buscamos na narrativa nunca vem, o que faz com que nós leitores também sufoquemos com o cheiro do ralo.



