Bertolt Brecht foi uma figura engajada e complicada - pelo menos em termos de produção literária.
De acordo com uma entrevista dada pelo poeta André Vallias ao podcast da revista Quatro Cinco Um, organizador de outra seleção de poemas pela lendária editora Perspectiva, Brecht produziu mais de 2 mil poemas. Dá para imaginar? Pois é.
Brecht é o típico homem do século XX. Intelectual, militante político (marxista) e artista. Nesta seleção de 260 poemas feita por Paulo César de Souza, os leitores podem se deparar com as múltiplas faces do conhecido dramaturgo: o satírico, o crítico sagaz, o apaixonado, o militante, o criador de elegias (poemas que se dedicam ao luto ou à tristeza, na explicação palpável, ou aqueles produzidos em hexâmetros e pentâmetros alternados, na explicação técnica), entre outros.
E tem uma coisa que é engraçada nisso tudo. Bertolt Brecht é, creio, ao lado de Samuel Beckett, um dos principais dramaturgos do século XX. Mas confesso que não me lembro de ter visto algo baseado em suas peças. Portanto, vocês podem imaginar que eu sabia menos ainda da sua produção poética e, se você também se identifica com essa situação, esse pode ser um bom livro para se ter na estante.
Brecht é, como muito bem definido na contracapa do livro, um poeta-cronista. Sua poesia, de cunho popular e militante, é feita muito mais da vivência que de sentimentos.
São muitos os poemas incríveis e muitos os poemas inertes (afinal, temos aqui 260 poemas) da seleção. Como eu não faço anotações enquanto leio - tenho para mim que a leitura de qualquer livro deve ser sensorial ao extremo, sem paradas ou distrações, leve o tempo que for -, vou falar apenas de dois poemas que realmente me marcaram muito: o belíssimo "Lista de preferências de Orge", que é sucinto e de uma força imensurável, e o pequeníssimo "Se fôssemos infinitos", que termina o livro de forma épica, ambos facilmente possíveis de encontrar na internet. Dois poemas que mostram o poder da literatura em duas páginas, talvez menos, sem precisar de sagas ou volumes intermináveis. Vale a leitura.