Não é à toa que o livro é considerado um almejado clássico das ciências sociais. As análises objetivas e minuciosas é exemplar. O autor se propõe a estudar o SOMOS, grupo homossexual nos períodos de redemocratização do Brasil, sob o olhar etnográfico da Antropologia. Assim, acompanha o crescer do movimento homossexual, tendo enfoque neste grupo. Seus ganhos, conflitos, contradições e importância. Narra o movimento na construção do que seria o próprio movimento no fim dos anos 80.
Alguns pontos de contribuição do grupo que podem ser mais claramente vistos e são até curiosos: como no esvaziamento de termos ofensivos como "bicha" e até a palavra "lésbica", através da adoção em cumprimentos e situações cotidianas.
Também na parte do SOMOS em ajudar a construir uma identidade homossexual, longe da pejoritividade e papéis de gênero conservadores, o apresentar os integrantes gays ao gueto, lugar onde homossexuais masculinos e femininos se reuniam e podiam, com certa restrição de liberdade se reunir pra festas e encontros casuais longe e assumir suas identidades. Diz da força do jornal Lampião na voz ao movimento homossexual, a repressão social e policial sofrida, o antiautoritarismo como filosofia do grupo, os conflitos pela falta de representação de negros e mulheres e até no não reconhecimento da bissexualidade pelo movimento até então. Tudo isso com incríveis citações de falas de entrevistados e autores contemporâneos ao estudo.
Enfim, todos esses tópicos com o fim de linear um ponto de contradição na liderança do grupo, tema da sua tese de doutorado. Sua única penalidade é ser um pouco pedante na escrita, poderia ser mais fluida. Porém, é ainda um ótimo estudo, que dá uma enorme panorama sobre o tema da homossexualidade no Brasil. A leitura é com certeza recomendada.