O que se tem nesta narrativa é uma deambulação, uma vertigem do lugar e do tempo para um escritor e para a literatura num país de ressaca e, principalmente, uma vertigem do sentido de ofício para o escritor e para a literatura. No livro, ficamos diante de um escritor vindo de Minas Gerais Carlos Santeiro aparentemente em crise, como todo o resto ao seu redor, que passa os dias apostando o pouco dinheiro em corridas de cavalos. Carlos é autor de um único livro de sucesso, mora num cubículo em Copacabana e recebe a visita de uma jornalista para uma entrevista. Ela prepara uma reportagem sobre a literatura brasileira produzida durante os anos de ditadura e o que se pode esperar da literatura que se produzirá no agora dos anos pós-ditadura. Esta é de fato a questão, talvez, do romance. O movimento que Sérgio Sant'Anna dá as suas duas personagens vem no plano de uma ficção emperrada, como é toda a crise desses primeiros anos. Ele arma então uma peça de teatro, um diálogo convulso, tanto na estrutura do texto do romance quanto na composição da conversa que Carlos parece dirigir o tempo todo, como se fosse a tal peça de teatro, deixando Clea, a jornalista, numa situação insuspeita: ele aceitou ser entrevistado porque quer comer a jornalista, ela aceitou ir até lá à noite porque quer ser comida pelo escritor.
Um Romance de Geração -
Sérgio Sant'Anna
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Ver maisTenho enorme preguiça de falar sobre esse livro e sei o quanto é deselegante começar assim. Não porque ele seja uma leitura ruim, um mau livro, um desperdício de tempo. Não não, nada disso. A leitura atenta de Um romance de geração revela inúmeras camadas de sentido muito bem sobrepostas, o que torna qualquer análise mais profunda um labirinto bem arejado e luminoso, mas sem saída. Publicado em 1980, nos anos de esfriamento da máquina ditatorial, o livro está dividido em duas partes: a primeira é um texto teatral em um ato com duas personagens (um escritor e uma jornalista) que viram a noite no apartamento dele, entre bebidas, flertes e reflexões sobre arte, vida, ditadura. A segunda, um posfácio em que o autor apresenta a proposta da peça em sua integridade (originalmente, seriam três atos) e entrega ao leitor (ou ao público, a ambiguidade sobre o posfácio fazer parte da peça não pode ser descartada) possíveis chaves de interpretação tanto de leitura quanto de montagem do espetáculo. . Na peça, uma jornalista visita um escritor em crise para uma entrevista. A própria entrevista, no entanto, nunca chega a bom termo, mas o encontro, com seus textos dentro de textos, peças dentro de peças, elogios à performance dos atores e declamações grandiloquentes acaba virando, ele mesmo, um ato teatral, ou o grande romance da geração pós-64 na fantasia do escritor-personagem. . Minha indisposição para falar sobre esse livro vem, de certa forma, desse transbordamento metalinguístico que marca fortemente as duas partes da obra. Bem versado, o autor distribuiu por seu texto (sem frugalidade alguma) inúmeros dispositivos desconstrutores: se o acusam de empostado e pretensioso, o texto reage com “Bravo, essa é a intenção”. Se parece machista e misógino, “Bravo, essa é a grande crítica da obra”. Se não passa de um inócuo jogo cênico de espelhos, “Bravo, você descobriu o segredo”. Labirinto sem saída, tenho dito. E tenho preguiça. . Mas talvez seja apenas desânimo pelos 20 milhões de itens consumidos pelas chamas de nossa complacente ignorância.
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