José Saramago é um nome polêmico, sendo inegável sua influência na literatura. Sendo o primeiro (e único!, infelizmente) ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa, o autor usa de uma escrita original, não temendo a opinião alheia.
Em “As intermitências da morte”, Saramago conta-nos a história de um simples país, que na virada de um ano, para de haver mortes em seu território. Podendo estar em estado terminal, ou tendo levado algum ferimento fatal, a situação não importa: ninguém mais morre naquele país.
Neste pretexto, é possível imaginar inúmeros caminhos para a obra. Saramago coloca o dedo na ferida; sua análise de como uma nação reagiria em tal situação é crua e extremamente verdadeira. Não há papas na língua, o autor não teme mostrar a podridão humana. Sinto que esse é o ponto chave de sua literatura: não gasta tempo explicando os motivos da situação, ou tendo rigor científico, simplesmente dispõe-se a escrever para escancarar o comportamento do ser humano. Muitos podem ver sua escrita como uma certa hipérbole, cultuando do pessimismo. Discordo. Não acho que ninguém negue como o ser humano aproveita do sofrimento de seu semelhante. O que diria ele da pandemia? O deleite perante a miséria humana esteve no apogeu. A miséria humana esteve no apogeu.
José Saramago é um autor que recomendo, mas saiba que deve-se ir preparado para lidar com suas obras. Terminamos todos os seus livros com um sentimento estranho, quase com uma pintada de niilismo. Vá sabendo que terminará a leitura sendo outra pessoa.