Li a poesia completa de Idea Vilariño no original, enquanto ouvia sua voz, geralmente à noite. A poeta gravou grande parte de seus poemas (disponível no Spotify e no YouTube). Precisei pesquisar uma ou outra palavra, mas consegui acompanhar bem. Vilariño confere à leitura uma cadência e ênfase impregnadas de melancolia. Foi, sem dúvida, uma experiência singular.
Os poemas são estilisticamente simples. Os temas se repetem muito. Há principalmente o amor, que oscila entre singeleza, obsessão e desencanto, e a noite, que inevitavelmente traz a nostalgia, a solidão, a angústia; o fim. Também há revolta e política. Tudo isso inscrito na experiência da mulheridade latino-americana do século XX.
Importante lembrar que a poeta uruguaia sofreu com problemas de saúde desde muito cedo e perdeu os pais precocemente, o que impactou em toda a sua produção.
O poema Eso resume alguns dos principais temas de Vilariño:
Mi cansancio / mi angustia / mi alegría / mi pavor / mi humildad / mis noches todas / mi nostalgia del año / mil novecientos treinta / mi sentido común / mi rebeldía / Mi desdén / mi crueldad y mi congoja / mi abandono / mi llanto / mi agonía / mi herencia irrenunciable y dolorosa / mi sufrimiento / en fin / mi pobre vida.
Uma angústia que é fruto, também, da própria paixão:
este amor desgarrado por el mundo / esta diaria constante despedida.
A autora retorna incessantemente às mesmas compreensões e incompreensões. Versos e palavras que se repetem em outras disposições como que tentando, desta vez, manter o castelo de areia em pé. Porém, sabendo sempre da inutilidade de todo dizer:
Y seguirá sin mí este mundo mago / este mundo podrido. / Tanto árbol que planté / y versos que escribí en la madrugada / y andarán por ahí como basura / como restos de un alma / de alguien que estuvo aquí / y ya no más / no más. / Lo triste lo peor fue haber vivido / como si eso importara / vivido como un pobre adolescente / que tropezó y cayó y no supo / y lloró y se quejó / y todo lo demás / y creyó que importaba.
Toda tentativa de afirmar o mundo é suplantada pela lembrança. Mas por que negá-lo? É um vuelo ciego:
Vamos andando vamos / rodando deslizándonos / girando finamente / en una grave danza condenada. / Vamos riendo vamos / peleando haciendo nudos / completamente locos / olvidando olvidados / de que es un vuelo ciego / y vano y espantoso / sin vasos cigarrillos ni amables azafatas. / Cómo no se oyen gritos de socorro / no suben como un vaho los aullidos / de tantos condenados / cómo no están llorando por todos los rincones / muriéndose de miedo. / Cómo pueden vivir pelear reírse / mientras vértigo / danza / vuelo fatal y ciego / vamos por los espacios / por esa extraña noche / dando vueltas / cayendo / dibujando las últimas volutas / de una espiral terrible.
É uma poesia que se equipara ao uivo incompreensível de um cão para a lua um cansaço frente à tentativa inútil de fixar o tempo, mas também a insistência em dizer. A ânsia de encontrar. Vilariño viveu 89 anos. Escreveu desde os 17. Foi, segundo ela mesma,
Una fuerza / una pasión honesta y unas ganas / unas vulgares ganas de seguir. / Fue simplemente eso.