A obra é dividida em duas grandes partes e vários capítulos. É o primeiro livro que leio do Latour. De cara fica evidente uma forma peculiar de escrita, com toques de sarcasmo e metáforas. Ex em uma frase curta: para entender o que considero ANT, precisamos libertar de suas gaiolas entidades até agora proibidas de pisar o palco e deixa-las perambular novamente pelo mundo p. 342. Se por um lado essa personalidade deixa o texto mais leve do que uma tese acadêmica, por outro acaba esfumaçando alguns conceitos.
Na primeira parte, Latour apresenta a ideia de que a sociedade é composta por uma rede complexa de associações entre seres humanos e objetos. Segundo ele, não tem contexto, forças invisíveis ou entidades pré-dadas que a teoria social mainstream costuma usar para explicar os fenômenos sociais. Latour deixa isso claro em expressões como o social deve ser explicado, em vez de fornecer a explicação p. 160, abandonar a explicação social é como abandonar o éter p. 342. Porém, pessoalmente senti que a sua argumentação é muito diluída, e não acompanha com a mesma intensidade suas frases de efeito.
Depois de expor o problema de modo amplo, comentando as diferenças entre a sociologia de associações e a sociologia do social, Latour dedica a segunda parte do livro para definir conceitos importantes da ANT e retomar casos apresentados anteriormente. Explorando-os com esse novo olhar que a ANT consegue oferecer na modulação da sociedade.
Particularmente gostei de um dos capítulos feito em forma de diálogo, entre um professor e um aluno. Esse é um diferencial do livro que fez eu bater o martelo para ok, eu recomendaria a leitura do livro, nem que fosse por esse capítulo. Nesse diálogo Latour antecipa e esclarece, na figura do aluno, várias dúvidas que eu fui tendo em relação a ANT.
Enfim, Latour argumenta que o mundo social não é um conjunto de entidades pré-dadas, mas sim um processo contínuo de criação e manutenção de associações (entre humanos e não-humanos). Diante disso, ele propõe que a sociologia deve se concentrar no estudo dessas associações, em vez de tentar identificar estruturas sociais abstratas. Ao longo do texto fica evidente críticas a outros sociólogos, particularmente Bourdieu.
â¡ï¸RESUMO: indico, legal para usar como livro-texto para debates ou sala de aula. Achei a ANT conceitualmente justa e radical, além de difícil de sustentar teses sociológicas na prática (talvez porque o discurso dos fatores sociais esteja muito arreigado). Anotei muitas passagens e é um livro para reler.