Os amigos que me acompanham aqui já há um tempo (participo do site desde 2020 e resenho praticamente tudo o que leio) sabem que eu costumo fazer longos históricos "reclamões" (geralmente com debates vivos com o autor) e, depois, na nota final dou aquela aliviada (geralmente com notas acima de quatro ou até com cinco estrelas, em alguns casos).
Este não será o caso aqui. Eu acho que o trabalho do Singer aqui, no tema "lulismo" (no português normal, sobre o ex-presidente Lula; já que o neologismo do Singer não colou) é admirável, e há um esforço intelectual claro para tentar entender o objeto de sua pesquisa: os governos do PT a partir de 2003, marcando o início do século 21 no Brasil. No entanto, este esforço contém inúmeras deficiências e lacunas, as quais eu tentarei abordar brevemente aqui.
Vamos começar primeiramente com a conclusão: o livro termina dizendo que a tendência política do Brasil seria a de uma diluição da polarização política, e que tudo caminharia a se estabilizar pelo centro. Ou seja, uma direita tentando ser mais "popular" (para se aproximar do legado do Lula) e uma esquerda tentando se fantasiar para o mercado (passando batom, colocando salto-alto, essa coisa toda). Livro redigido em 2012 (com base em artigos escritos lá pra 2009, mas que inclui algumas observações sobre o comecinho do governo Dilma), ele erra crassamente. Erra bonito.
Claro que o Singer não é Mãe Dinah, a mitológica personagem brasileira que, dentre outros feitos, previu a morte dos Mamonas Assassinas. Figurinha carimbada nos programas de televisão da década de 90, ela atirava pra tudo quanto é lado (previa a morte de praticamente todo mundo), um dia ela acertou. Singer usa métodos diferentes, e aqui, a partir de um pensamento sociológico bem torto e algo errante (e utilizando recortes de vários outros teóricos, a maioria deles cientistas políticos dos mais variados matizes), delineia um cenário oposto ao que aconteceu.
Seria injusto, então, jogar todo esse erro na conta dele, pois mesmo a mais precisa ciência política não é "futurologia", e não pode prever com precisão o que vai acontecer. Ainda mais, considerando a notória instabilidade do tema. Porém cabe pensar o que fez ele chegar a uma conclusão exatamente oposta a que aconteceu, sempre insistindo numa impossível permanência do PT no governo por tanto tempo (diz Singer, em certo momento, que o PT ficaria muitas décadas no poder, o que não se mostrou verdade).
O falecido jornalista Paulo Henrique Amorim, precursor da blogosfera de esquerda no Brasil, já utilizava o termo "PiG" (Partido da Imprensa Golpista) desde os idos dos anos 2000. Jornalista algo caricato, famoso por ter uma prosódia parecida com a do lendário jornalista Paulo Francis (um sotaque carregado e forçado irritante), contém luzes intelectuais muito mais modestas do que a do todo-poderoso Singer.
O que o levou, então, a apontar já um golpe tantos anos antes, já na época do "mensalão"? Talvez fosse o caso de Singer descer do seu pedestal acadêmico, parar de tentar dar nó em pingo d'água, e ouvir os setores mais "safos" da política (jornalistas, militantes de esquerda, dentre outros).
O livro é tão, mas tão equivocado, que dentre as piruetas intelectualoides do seu autor, Lula virou até o Roosevelt (presidente norte-americano do New Deal) e até o Napoleão III ele já virou (a partir de uma leitura algo torta de Marx). São esforços intelectuais impressionantes, e tem a vantagem de estender um pouco a leitura do tema (arriscando alguns paralelos históricos), mas parecem errar muito o alvo.
O New Deal é, talvez, o assunto que mais aparece no livro. Nome que foi dado ao conjunto de medidas de Franklin D. Roosevelt, nos Estados Unidos após a crise de 1929, Lula é constantemente comparado (em objetivos e resultados) ao que aconteceu naquele país, por esta ocasião. Só que, nessas comparações, não há nenhuma ressalva histórica, nenhuma contextualização brasileira, nada: é como se os dois países fossem de papelão, sem processos históricos distintos, e a comparação se impondo automaticamente.
Até brinquei, em certo momento, de que isso relevaria um desejo do Singer de "ser americano". É uma daquelas brincadeiras com um fundo de verdade. Aqui, faltaria uma maior discussão das especificidades brasileiras.
Censura o Lula por ter feito mudanças muito lentas, no que ele chama de "reformismo fraco". Termo estranho, pois por definição, reformismo é fraco. É, afinal, uma reforma, uma mão de tinta. Não é uma mudança estrutural, nem uma revolução. A distinção me soa artificial.
Na crítica, compara com o governo Salvador Allende, que teria feito muito mais em um ano do que Lula sequer fez em oito. Só que ele se esquece que o resultado disso foi um golpe de estado e uma das ditaduras mais sangrentas do continente, inaugurando o neoliberalismo na região. Singer nunca faz a conta disso, os processos políticos são "engessados". Lula não fez porque não quis, governa-se por mágica e não há correlação de forças.
Mesmo assim, indico fortemente a leitura do livro, pois ele é uma oportunidade de entender a temática envolvendo este personagem brasileiro (o ex, e talvez futuro presidente Lula; lembrando que escrevo aqui de junho de 2022, antes das eleições), a partir de um olhar mais "acadêmico", saindo um pouco do Fla-Flu que domina o ambiente. É uma maneira de se municiar de fatos e entender um pouco melhor este período. Neste sentido, o livro cumpre importante função.
Outra grande vantagem do livro é o diálogo com outros teóricos, todo o texto é recortado pelas ideias de outros estudiosos, que alimentam a própria pesquisa do Singer. Então, se a pessoa quiser se aprofundar, encontrará toda uma constelação de outros pesquisadores.
O livro também é bastante carregado nos dados, não se passa quase um parágrafo sem que vários deles tentem sustentar as teses do autor. Eu senti um pouco que ele torturou os números, e ele reduz equivocadamente a política ao seu aspecto eleitoral (aspecto mais superficial), e toma as coisas pelo seu valor de face.
Por exemplo, para ele o PSDB estava se tornando mais à esquerda... apenas porque, na eleição de 2010, disse que ampliaria os benefícios sociais dos governos anteriores. Sendo que promessas de campanha são a coisa mais mentirosa que existe no Brasil, em qualquer boteco se sabe disso.
Trata-se, então, de um relevante esforço de entendimento do seu autor, um cientista político com longa passagem pelo jornalismo. No final, temos um apêndice auto-adulatório, em que ele conta um pouco da sua carreira, mas que ajuda a entender porque ele pensa o que pensa (e da maneira que pensa). Literariamente, é aquele estilo insípido das teses acadêmicas, o texto não tem "malandragem", flexibilidade, é um parto pra ler, mas é razoavelmente claro no que diz. Indico sua leitura crítica.