O Guesa -

    Sousândrade

    SIOGE
    1979
    370 páginas
    12h 20m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    No primeiro ano deste século, o celebrado escritor peruano Ricardo Palma identificou as obras que para ele melhor representavam o ideal do americanismo literário: La Araucana, de Ercília; O Guesa errante, de Sousa Andrade e Tabaré, son los poemas que, en mi concepto, satisfacen mas cumplidamente el ideal del americanismo literario.1 Das três obras citadas, duas eram conhecidas e admiradas por seus leitores. Mas, acompanhando La Araucana e Tabaré, Ricardo Palma colocou O Guesa Errante, poema pouco divulgado de um autor desconhecido. Hoje, quando Sousândrade e seu Guesa recebem a atenção e a crítica merecida, está claro que o reconhecimento de Palma sugere uma preciência literária. Ironicamente, porém, não foi o americanismo de Sousândrade, mas o que hoje reconhecemos como elementos modernistas no Inferno de Wall Street (uma seção do Guesa), que lhe estão proporcionando um prestígio de que não gozou em vida. Esses elementos modernistas deram a Sousândrade a possibilidade de captar o espírito sórdido e licencioso do chamado “Gilded Age” (1870-1898). Num poema não completamente livre de boatos e ineptitudes, chega, em seus pontos altos, as observações penetrantes da vida nos Estados Unidos, no período de seu crescimento mais vigoroso, marcado pela rápida transição da ingenuidade agrícola para o espírito predatório do capitalismo imperialista. VISÃO PAN-AMERICANA: SOUSÂNDRADE, O GUESA Deixando para o capítulo seguinte, o exame pormenorizado da visão pan-americana de Sousândrade, vejamos o esboço de seu poema: “O poema foi livremente esboçado todo, segundo a natureza singela e forte da lenda e segundo a natureza própria do autor”.2 Essa “natureza própria” do autor é a sua biografia, apresentada no primeiro capítulo. A lenda, proveniente dos índios Muyscas, da Colômbia, registrada por Alexandre Humboldt e usada por Sousândrade como epígrafe da edição londrina de O Guesa, poderia ser resumida da seguinte maneira: Num passado longíquo, os muyscanos foram visitados por um deus chamado Bochica, que lhes deu lei, introduziu a adoração ao sol, regulou as estações, inventou o calendário e, assim, como Viracocha e Quetzalcoati, suas contrafaces peruana e mexicana, fundou a sua religião. Bochica também estabeleceu a ordem dos sacrifícios que deveriam ser celebrados em certos intervalos para assegurar a paz e a prosperidade contínua. A vítima humana do sacrifício, denominada o guesa, era uma criança arrancada da casa paterna. Recolhido ao templo do sol, o guesa recebia cuidadosa educação até atingir a idade de 10 anos. De então em diante, percorria o caminho do Suna, que correspondia ao itinerário cumprido por Bochica. Ao atingir os 15 anos, e após ter cumprido a jornada ritual, era levado em procissão pelos chefes ou sacerdotes à coluna sacrificatória, onde se lhe extirpava o coração, para apresentá-lo em oferenda a Bochica, o deus-sol.3 Era fácil para Sousândrade identificar-se com o guesa. Ele também muito cedo conhecera a orfandade, fora despojado de sua herança e achava que a manifestação moderna dos Xeques (uma personificação da maldade) constituía verdadeiro tormento ao longo de sua jornada (vida). No poema, o autor esclarece que ele é o último guesa da lenda e tem um pacto com o índio para cantar uma nova e diferente canção: Voltara essa criança abandonada Dos destinos, que então errante a sós Os Xeques piedosos encontraram Que foi o último Guesa à lenda atroz: (...) - Vós, que na lenda, do princípio, vistes O belo, embora a forma extravagante, O tratado firmei da paz, que existe Entre vós, o cantor e o Guesa Errante: Ele afinou as cordas de sua harpa Nos tons que ele somente e a sós escuta; Nunca os ouviu dos mestres – se desfarpa Talvez por isso a vibração d’inculta O papel de Guesa – vítima que Sousândrade se imagina representando deverá resultar não somente na revitalização da cultura indígena, mas no benefício e na redenção de toda a humanidade. É significativo notar que Sousândrade não haja escolhido um tema brasileiro, mas americano.O guesa não é apenas muysca, mas simboliza todos os índios, 5 enquanto o caminho do Suna foi alongado para abranger o mundo inteiro, nesta nova e grande aventura de circunavegação poética.6 O Times, de Londres, corretamente observa a respeito d’O Guesa que “a originalidade do trabalho está na extraordinária visão das Américas desde os tempos pré-colombianos. Se algum poema merece o título de épico latino-americano, ei-lo aqui”.7 Mas O Guesa não é simplesmente outro poema-jornada com um herói-vítima; é o clangor do revolucionário não-violento, arauto de uma mensagem social. Para atingir sua meta as recorrências não visam apenas ao sentimento, mas ao intelecto do leitor, como observa o poeta: O Guesa nada tendo do dramático, do lírico ou do épico, mas simplesmente da narrativa, adotei para ele o metro que menos canta e, como se até lhe fosse necessária, a monotonia dos sons de uma só corda: adotei o verso que mais separa-se dos esplendores de luz e de música, mas que, pela severidade sua, dá ao pensamento maior energia e concisão, deixando o poeta na plenitude intelectual.(...) Ao esplendoroso dos quadros quisera ele antepor o ideal da inteligência. O Guesa, tendo a forma inversa e o coração natural do selvagem sem academia, aceitai-o assim mesmo – por espírito de liberdade ao menos, e porque ele vos ama, e porque tem um fim social. (Frederick G. Williams)

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    Mariana de Sá03/04/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A personagem Guesa: um mito multifacetado

    No âmbito da escola romântica brasileira, segundo uma classificação cronológica, Joaquim de Sousândrade pertence à segunda geração de poetas românticos. Sua produção artística estava inserida em um contexto no qual o subjetivismo, a moda de Musset e Byron, ganhava força no discurso literário. Sendo assim, o épico O Guesa está carregado dessa áurea subjetiva, bem como de inovações estéticas tanto no que diz respeito aos recursos estilísticos, quanto ao tratamento dado às temáticas próprias do romantismo, refletindo-se no tratamento que o narrador dá à cena a qual está se referindo. Essa postura mais aproximada do narrador do épico romântico coaduna-se com a do narrador do romance. Sousândrade partiu de uma lenda dos índios muíscas da Colômbia para compor o seu projeto épico-romântico. Para tanto, recorreu à pesquisa antropológica do alemão Humboldt, em seu livro Vues de Cordillères (1810-13) e a seção “Colombine” da enciclopédia L’Univers (1837), redigida por César Famin. O Guesa, cujo significado de seu nome é “Sem Lar”, ou “Errante”. Trata-se de uma criança raptada dos pais, que após a peregrinação na estrada do Suna, era sacrificado aos quinze anos de idade, em tributo ao deus sol conhecido como Bochica. O ritual de sacrifício era realizado pelos sacerdotes – os xeques, onde em uma praça circular era a vítima a ser sacrificada atada a colunas circulares, sendo atingido por flechas, seu sangue era recolhido em vasos sagrados e seu coração oferecido a Bochica, abrindo-se, assim, um novo ciclo de peregrinação e sacrifício. Para entendermos a complexidade da personagem construída por Sousândrade, é necessário entendermos a proposta indígena trazida por ele, o que o diferencia do modelo de índio consagrado por José de Alencar. O Guesa se destaca como herói indígena, diferenciando-se do índio de Alencar, porque ultrapassa as barreiras da representação do mito nacional, alcançando um patamar mais elevado, representando um índio transcontinental, transformando-se em um herói multifacetado, com uma identidade mais plural. Ele não figura apenas um índio muísca colombiano, mas também inca peruano e brasileiro. A personagem nascida nos Andes “Eu nasci no deserto,/Sob o sol do equador:” (Canto II, p. 47), o Guesa de Sousândrade também se apresenta na roupagem de um nobre inca “Traja apenas sandália e manto (ao jeito Do Inca), mas de oiro puro e pedras belas”. (Canto V p. 117). Além disso, o Guesa cresceu na Fazenda Vitória, no Maranhão, “Jerusalem das selvas, ó Victória,/Onde ao collo do amor crescera o Guesa” (Canto V, p. 133). Dessa maneira, a personagem apresenta um hibridismo de nacionalidade, sem com isso perder a essência heroica. Sua trajetória segue uma linha frenética de tempo e espaço, percorrendo a América fugindo dos xeques. Mas antes de ser um fugitivo, o Guesa é um viajante que erra pelos desertos, como é chamado por Dudaleda, a mulata brasileira, “Viajor sitibundo dos desertos” (p. 110), ou de peregrino, como ele mesmo se assume “–Romeiro solitário dos espaços (p. 134). Distanciando-se do mito e aproximando-se do humano, é que conseguimos enxergar melhor a diferença entre o herói indígena idealizado por José de Alencar e o Guesa. O herói de Sousândrade carrega em si o peso da consciência crítica e a constatação de um mundo hostil para ele, separando-se do colonizador e se assumindo como parte oprimida. Ao contrário de Peri que se transporta para o mundo branco naturalmente, sem questionamentos. Cabe esclarecer que não estamos questionando o heroísmo de Peri, mas sim a postura assumida por ele ante o colonizador. Além disso, este se diferencia do Guesa por ser um índio idealizado, distante da realidade histórica dos indígenas, enquanto o Guesa é, como afirma Luíza Lobo, uma opção realista para a criação do herói. Assim se diferencia do índio de Alencar que se sacrifica ao branco sendo-lhe servil, em um ato que para é sublime. Enquanto o Guesa foge do sacrifício e da submissão gratuita. Nesse sentido, se por um lado o Guesa representa um modelo indígena mais universal, representando um índio coletivo, ele também se apresenta como indivíduo com questões de foro particular, que lhe conferem uma área extremamente voltada para o eu, carregada de tristeza e solidão, típico do caráter do herói romântico “Deitado a sós na solidão das flores,/Eu contemplo a harmonia das estrelas:” (p. 138). O Guesa é um índio que reconhece a si como parte de uma história marcada por opressão e morte, e sua figura reflete uma áurea superior “E nobremente galopava o Guesa” (p. 122). Ele se impõe como guerreiro, ainda que ultrajado pela perseguição dos xeques. Contudo, não podemos deixar de lado as contradições que a personagem apresenta. Suas contradições evidenciam-se na sua identidade, já que é uma vítima mitológica peruana, que cresceu em uma fazenda no Maranhão, que se compara a um poeta. Além disso, é um índio realista e humanizado, que se posiciona diante do drama coletivo, por outro lado também é um guerreiro que se entrega ao vazio da solidão e da melancolia, se abstendo da luta “Elles descansam; eu à dor me entrego” (p. 141). O Guesa não pode ser encarado como um personagem simples, pelo que podemos verificar, temos um indivíduo complexo e multifacetado, que não se resume em um aspecto acabado. Apesar de sua figura representar um peregrino errante, um índio lendário, sem lar, ele é de um lugar, a Fazenda Victória, que representa um lugar que lhe é familiar, conferindo-lhe um sentimento de pertencimento, como se este fosse o verdadeiro lar do Guesa“Oh! paz e amor ao geniio bom dos lares,/Quea luz ofende, que importuna accende/Pródigo filho, a dor d’estes logares” (p. 138).

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