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    Sentimental - Poemas

    Eucanaã Ferraz

    Companhia das Letras
    2012
    91 páginas
    3h 2m
    ISBN-13: 9788535921670
    Português Brasileiro
    3.5
    162 avaliações
    Leram225Lendo1Querem67Relendo0Abandonos4Resenhas8
    Favoritos13Desejados67Avaliaram162

    Sentimental, o sexto livro de poemas de Eucanaã Ferraz, é ao mesmo tempo claro e paradoxal. Claro porque, a exemplo de livros como Rua do Mundo e Cinemateca, suas obras anteriores, busca a luz mais clara do pensamento numa poesia que é, acima de tudo, a procura pelo entendimento das coisas. Paradoxal porque, como seu título pode sugerir, investe num olhar mais emocional da vida. Há isso, claro, no conjunto de poemas. Porém sem uma gota de sentimentalismo. É esse equilíbrio entre sentimento e razão que faz do livro um acontecimento literário na poesia brasileira. Com poemas que tratam da memória dos afetos e das relações destinadas a compor a tessitura de nossos sonhos e recordações, Sentimental investe com a ensolarada delicadeza característica do autor no amor, nas viagens, na literatura. Por vezes irônico, sempre coloquial e com grande finura, Eucanaã cria um elenco de poemas que sinalizam, em sua precisa elegância, a construção de uma obra das mais originais em nosso cenário.

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    Arsenio Meira23/05/2014Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    "Quase só músculo a carne dura. É preciso morder com força."

    Eucanaã Ferraz é da nova geração, mas já fez e fará muito. É a sensação que se fixou em minha cabeça após ler,com alguma reticência esse admirável exemplar de sua autoria: "Sentimental". O poeta é contemporâneo, mas não pára (dane-se essa reforma ortográfica. O verbo vai acentuado mesmo). Ele publicou, entre outros, os livros “Martelo” (1997), “Desassombro” (2002 - Prémio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, para melhor livro de poesia), “Rua do mundo” (2004) e “Cinemateca” (2008). Os três últimos livros foram editados em Portugal. Para a infância, publicou “Poemas da Lara” (2008) e “Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos” (2009). Organizou, entre outros, em terras lusitanas dois livros de Caetano Veloso, um de letras, “Letra só” (2003), e outro com textos em prosa, “O mundo não é chato” (2005, Famalicão: Quasi Edições, 2007); reuniu poemas e letras de canção na antologia “Veneno antimonotonia – os melhores poemas e canções contra o tédio” (2005); depois de preparar a “Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes” (2004), passou a coordenar a edição das obras do poeta no Brasil (Companhia das Letras) e em Portugal (Quasi Edições); publicou, na coleção Folha Explica, o volume “Vinicius de Moraes” (2006). Não é pouco. Merece registro. Aqui, em sua última peripécia poética, destaco o enfoque narrativo, a volúpia das sinestesias e um acento bem-vindo da ironia e de um aceno fraternal (vide o lindo e sutil poema em homenagem ao amigo Antonio Cicero e deferência in memorian prestada a Murilo Mendes, dentre outros colegas de ofício). No mais, são imagens inusitadas que, justapostas, embaralham a imaginação, sem desmentir o rigor que o tempo, inclemente, cobra de todos nós. A condição efêmera também é abordada; sim, há palavras que não fogem ou capitulam diante da morte, mas não perdem de vista a nesga do sonho que pode vir e é justamente por essa porta levemente entreaberta, que capturam com amorosidade e um tanto quanto de sarcasmo o passado que, sendo parte vital da memória, faz-se fênix, persiste e consegue anunciar o presente "para cantar com você / depois de uma vida inteira cantando para você" (p. 23). Do sabor sentimental há esse canto, e a esperança de que ele se renove. Em alguns versos uma gravidade leve e quando a acidez parece dominar a página, o poema enuncia uma capa de ironia como resistência para abolir a tristeza ou a monotonia. Eucannã não me parece ser um desses que creem na eternidade dos amores, e nem por isso ele se dá ao luxo de abandonar uma nostalgia, esse encanto do estilhaço de luz amorosa. O poeta não entrega os pontos, apesar da cicatriz, com seu horário cavernoso. A convivência desses paradoxos é sutilmente bem trabalhada pela sensibilidade e acuidade poéticas deste jovem e ativo autor que, na plenitude do seu processo criativo, não se encaixa no caldo morno da poesia brasileira contemporânea, que - perdida - tenta assumir um tom ora panfletário ou digno de uma complexidade ou coexistência com o coloquial, que na verdade reflete um descompasso e um aporte para o mediano de poetas que mal sabem para qual lado virar-se. Não é o que acontece com este "Sentimental", cujo sumo poético nos dá a impressão de que existem vinhos, copos, um encontro, a letra para tilintar a sangria e que, não obstante todos esses ingredientes, o ritmo geral do encontro amoroso não garante o "o rigor da simetria": [...] devia ser maio a cor que nos desenhava/Só o ar nos vestia/de uma vida mais leve/que ele". Ou para identificar essa assombração já antevista por Carlos Drummond de Andrade, também refletida pelo poeta carioca, fiel e à sua maneira: "Amor só vem mais tarde, amar/só vem depois, amor é quando /tudo se foi, virá no próximo/ trem, talvez no ano que vem/tudo será, por ora, pressentimento,/ presságio, bilhete em branco do bem/ gratuito para depois de gastos vultuosos/ tributos de desamor e de nada. /Amarmos começa no fim? Amor /se escreve ao contrário? Roma, /porém, não abrirá palácios senão, /quem sabe, no próximo feriado. /Moroso, é após tudo pronto /o amor quando, tardiamente,/ já não damos por nada ou /damos só tempo ao tempo." É este tempo oco, temido e angustiado, bem característico de uma era pontuada por amores líquidos que se liquefazem na primeira nuvem; em que encontros fugazes formulam tecnologias incontáveis, eis o tempo rechaçado pelo poeta, ou por quem luta para ser ou ter alguma memória genuinamente sentimental.

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    Eucanaã Ferraz

    Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1961. Publicou, entre outros, Desassombro (2002, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional), Rua do mundo (2004), Cinemateca (2008, Prêmio Jabuti), Sentimental (2012, Prêmio Portugal Telecom de Poesia), Escuta (2015), e, para o público infanto-juvenil Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos (2009) e Palhaço, macaco, passarinho (Prêmio Ofélia Fontes, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Melhor Livro para a Criança). Organizou vários livros, entre eles, Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005), ambos de Caetano Veloso; reuniu poemas e letras de canção na antologia Veneno antimonotonia (2005); após preparar a Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (2004), passou a coordenar a edição das obras do poeta (Companhia das Letras). Publicou, na coleção Folha Explica, o volume sobre Vinicius de Moraes (2006). É Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e, desde 2010, atua como Consultor de literatura do Instituto Moreira Salles, onde elabora publicações, exposições, debates, cursos e espetáculos. Edita, com André Vallias, a revista on line Errática (www.erratica.com.br).

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Eucanaã Ferraz