Sempre inicio um novo Afonso Cruz com uma expectativa enorme mas, ao mesmo tempo, uma certeza de uma leitura incrível, inesperada, imprevisível que vai me deixar de boca aberta e apaixonada.
Nesta obra, assim como nas outras de Afonso Cruz, nos deparamos com personagens impressionantes que nos marcam muito. Temos um garoto judeu que se esconde em um buraco no chão e passa a mancar depois que seu melhor amigo foi morto na sua frente durante a segunda Guerra mundial. Também somos apresentados ao bondoso e delicado senhor vendedor de pássaros que gosta de se sentar debaixo das gaiolas para ouvir o canto dos animais e ouve vozes vindas do chão. Temos um milionário excêntrico que quer descobrir o peso da alma humana e da maldade. Temos também um músico que enxerga os outros como se fossem acordes musicais. Além de muitos outros personagens marcantes como o bondoso gigante negro e a terrivelmente egoísta Lujsa. A primeira coisa que pensei quando terminei o livro foi: como é que o autor conseguiu organizar todos esses personagens e todas essas histórias?
Este livro é como um livro dentro do livro e muitas histórias transitam e confundem as fronteiras entre ficção e realidade. Não há uma linearidade temporal e, por isso, muitas vezes não sabemos ao certo o que é presente, passado, memória ou construção da memória ou ficção. Mas não será essa a dinâmica da vida?
A certa altura da leitura, percebemos que tudo é um grande quebra-cabeças e a ansiedade em resolver o problema e ver como tudo se encaixava me levou a ler o livro em algumas horas. Me sentia incapaz de interromper a leitura.
Afonso Cruz tem uma prosa deliciosa, fluída, poética, com trechos lindíssimos que me fizeram tirar os olhos do livro e olhar para o infinito por alguns segundos a admirar a enorme capacidade poética do autor e a sua sutil habilidade para me fazer pensar e me emocionar.
Este livro me fez pensar sobre as nossas próprias bonecas de kokoschka. As bonecas que nós construímos, personagens que se confundem entre realidade e ficção, pessoas a quem nós atribuímos características que gostaríamos que elas tivessem. Construímos personagens fictícios a partir de pessoas reais e decidimos acreditar que elas existem tal como imaginamos.
Seria essa a maneira que encontramos para amar alguém? Amor, afinal, não seria uma decisão que tomamos? A boneca é uma maravilhosa metáfora sobre amor e amizade e sobre como nos relacionamos com as pessoas ao nosso redor. Não seria possível pensar que quando construímos nossas bonecas de kokoschkas, quando construímos um personagem fictício a partir de um sujeito real, estamos na verdade fazendo uma construção de um ‘eu’ melhor? Será que não queremos que o ser que decidimos amar seja alguém melhor do que eu ou alguém que eu gostaria de ser – mesmo que ele não seja nada daquilo que decidimos acreditar que ele é?
Apenas existimos através do olhar do outro. O outro é fundamental para a construção de nossa própria identidade. Essa ideia maravilhosa e profundamente humana já foi discutida pelo olhar da antropologia em Tim Ingold, mas Afonso Cruz traz uma perspectiva literária e emocionante para a relação intrínseca entre o olhar do outro e minha própria existência.
Se a árvore caiu no meio da floresta e ninguém ouviu, ninguém testemunhou sua queda, então ela não caiu.