O Nosso Reino -

    valter hugo mãe

    Editora 34
    2012
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9788573264913
    Português Brasileiro

    Romance de estreia do aclamado autor valter hugo mãe - e primeiro livro da série composta por o remorso de baltazar serapião (2006), o apocalipse dos trabalhadores (2008) e a máquina de fazer espanhóis (2010) -, O nosso reino conta, em uma escrita arrebatadora, a história de um menino de oito anos e sua vida em uma pequena aldeia portuguesa nos anos 1970, nos estertores do regime salazarista. Narrado em primeira pessoa pelo pequeno Benjamim, o texto descreve a sua busca para distinguir o bem e o mal em meio à repressão da igreja e aos trágicos acontecimentos que ocorrem a seu redor, quando ele é tido ora como santo, ora como demônio. "Uma interpelação à figura de Deus, uma espécie de encosto de Deus à parede, a ver se ele responde. O livro é todo à volta do que há e do que não há, e do que se pensa ou do que se quer que exista." Com estas palavras, valter hugo mãe definiu o nosso reino, seu romance de estreia, que é também o romance inaugural de um ciclo que retrata, com as mais altas licenças poéticas, todas as idades da vida do homem - a infância, a juventude, a maturidade e a velhice. Neste livro, que corresponde à primeira idade, a criatura que ousa interpelar Deus e encostá-lo na parede é um garoto de oito anos. Seu reino - que se faz nosso no embalo poderoso de suas palavras -é o das fantasias infantis mescladas às loucuras e pesadelos adultos, que, como se pode imaginar, não são poucos numa pobre aldeia de pescadores do Portugal salazarista. É nesse cenário carregado de silêncios misteriosos que se move Benjamim, impelido por uma fome visceral de transcendência. Seu desejo de santidade não passará em brancas nuvens, despertará forças incompreensíveis, será objeto de veneração e de ira, e sua alma, afinal, torna-se o butim disputado por Deus e o Diabo numa terra de névoas.

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    Leila de Carvalho e Gonçalves 08/08/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    ironia intertextual

    lançado em 2004 e de autoria do português valter hugo mãe, “nosso reino” é um livro bastante singular, pois ultrapassa a definição de romance, sendo mais adequado considerá-lo uma “construção estética que reúne gêneros literários e não-literários”. aliás, ele abre a tetralogia das minúsculas que tem como fulcro os ciclos da vida, isto é, infância, juventude, maturidade e velhice. para quem pretende conhecê-la, os demais livros são respectivamente o remorso de baltazar serapião, o apocalipse dos trabalhadores e a máquina de fazer espanhóis. quanto ao título da tetralogia, cabe um aparte, mãe excluiu do texto todas as letras maiúsculas e esta opção salta aos olhos do leitor de imediato. todavia, também não há exclamações, interrogações, nem outros sinais de pontuação, a exceção do ponto, vírgula e hífen. portanto, essa é uma leitura que exige concentração, inclusive, algumas vezes tive de reler um trecho para melhor assimilá-lo. nosso reino tem como narrador e protagonista, benjamim, um menino de apenas oito anos. Ele vive numa pequena ilha pesqueira em Portugal, por ocasião da revolução dos cravos e o fulcro da história é a questão do divino a partir da convivência da personagem com uma família disfuncional e uma população pobre, ignorante e preconceituosa, resignada à ditadura salazarista e aos dogmas da igreja católica. como afirma o próprio autor, “benjamim é dotado de uma profunda candura e ausculta a figura de deus numa grande tristeza pelos infortúnios da vida. entre os assuntos que lhe magoam estão as terríveis palavras que dizem sobre a tia e, mais tarde, sobre os tios que chegam da França. essas duas passagens são como punhais no peito puro de uma criança e o leitor choca-se com a tristeza e o desamparo que o acompanha”. também o título do livro também merece um aparte. trata-se de uma intertextualidade, pois refere-se ao vosso reino, o reino de deus, mencionado no pai nosso, a oração mais conhecida de todo o mundo. por sinal, de acordo com o doutorando em letras filipe reblin*: este título é uma ironia intertextual, pois assume uma postura de acinte, afinal, valter hugo mãe subverte as referências aos textos de cunho religioso/bíblico, numa provocação de retirada do sacro, transformando os eventos em paródia, num processo iconoclasta.” ele também afirma que nosso reino é uma clara forma de hipertexto a partir da tradição bíblica, já que estabelece a relação de dois reinos: o celestial e glorioso, de deus; e o dos homens”, inclusive, este último surge transfigurado pela imaginação de Benjamim que na busca da transcendência, no caso, a santidade, torna-se objeto de veneração e ódio numa hipotética disputa entre deus e o diabo. finalmente, não poderia deixar de mencionar uma interessante perspectiva para nosso reino, de autoria do poeta brasileiro ferreira gullar: “... toda a narrativa de valter hugo, neste livro é subversiva, aparentemente natural mas, de fato, estranha. posso até imaginar que tenha ele pretendido fingir que que quem escreveu aquilo seria um menino de oito anos. a verdade, porém, é que como o livro não foi escrito por um menino mas pelo autor adulto, resulta uma escrita altamente sofisticada como um poema em prosa”. nota: esta é uma nova edição com prefácio de maria angélica melendi e ilustrações exclusivas de eduardo berliner. escolhi o e-book que, apresentando um valor mais acessível, recomendo. * Artigo “Vamos Nós ao Nosso Reino” publicado na Revista Versalete, v. 4, n. 7, jul./dez. 2016.

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