Guénon no seu mais abstrato e no meu menos favorito
Este é o quarto livro que leio do René Guénon dentro da coleção “Explorações Metafísicas” da editora Estrela da Manhã, depois de “O Esoterismo de Dante”, “Autoridade Espiritual e Poder Temporal” e “O Erro Espírita”. E devo ser honesto: foi o que menos gostei até agora. “O Simbolismo da Cruz”, publicado originalmente em 1931, é uma obra em que Guénon tenta demonstrar que a cruz é um símbolo metafísico universal, presente em praticamente todas as tradições desde épocas remotas, e que o cristianismo, ao reduzi-la ao signo de um fato histórico, perdeu de vista seu significado mais profundo. A tese em si é interessante. Guénon trabalha a cruz como representação do “Homem Universal” — conceito que ele traz do sufismo (al-Insân al-Kâmil) — e desenvolve uma geometria metafísica em que o eixo vertical liga o céu à terra, o espiritual ao material, enquanto o eixo horizontal representa a extensão dos estados do ser. Ele mobiliza o Vedanta, o taoísmo, o islamismo, a cabala, tudo para sustentar que a cruz transcende qualquer tradição particular. O problema é que Guénon me parece ter certezas muito sólidas sobre coisas que apresenta de forma pouco tangível e palatável. Ele escreve como quem já chegou à conclusão e está tentando mostrar ao leitor um caminho que, para ele, é evidente — mas que para quem lê nem sempre se torna claro. É um livro extremamente abstrato, mais do que os outros três que li. Nos livros anteriores, havia algo concreto a que se agarrar: a estrutura numerológica de Dante, a hierarquia entre sacerdócio e realeza, os problemas históricos do espiritismo. Aqui, Guénon mergulha na metafísica pura e espera que o leitor o acompanhe em um raciocínio que, por vezes, soa mais como afirmação do que como demonstração. A ideia de universalidade é bonita, mas quando tudo se torna universal, nada se torna específico o suficiente para ser palpável. Dito isso, não me desencorajou de continuar lendo Guénon. Pelo contrário. Já li quatro livros dele e os três anteriores me impressionaram genuinamente. Este me mostrou um lado do autor que é mais hermético, mais fechado em si mesmo, e que talvez exija um leitor já familiarizado com o vocabulário metafísico que ele constrói ao longo de toda a sua obra. Pode ser que eu volte a este livro no futuro, com mais bagagem, e tenha uma impressão diferente. Por enquanto, fica como o Guénon que menos me conquistou — mas ainda assim, Guénon.



