Ualalapi -

    Ugulani Ba Ka Khosa

    Caminho
    1991
    125 páginas
    4h 10m
    ISBN-10: 9722105698
    Português Brasileiro

    Ualalapi é o nome dum guerreiro nguni destinado a matar Mafemane, um rei hosi (rei ou imperador em idioma Tsonga). O propósito de assassinar o rei faz parte da ambição do irmão deste, chamado Ngungunhane. A história, contada em seis episódios, narra as façanhas e os excessos de Ngungunhane, que após a morte do irmão ocupa o lugar de mando. Há um afã épico na narração que salienta a personagem Ngungunhane, ao mesmo tempo, como um tirano e um herói; os detalhes sanguinolentos das acções misturam-se com um espírito de rebeldia que se opõe à conquista europeia. O período narrativo do livro situa-se nos finais do século XIX quando as explorações portuguesas começam a espalhar-se pelo sul de África. A áspera e combatente personalidade do monarca vem a ser contrastada com a personalidade passiva e europeizada do seu filho Manua; este confronto porá de manifesto o conflito entre a identidade pré-colonial e as consequências da sua transição para a época colonial e pós-colonial.

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    SAMUEL MEDINA DO NASCIMENTO29/01/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O estertor de um império

    Por vezes, esquecemos que não somos os únicos que falam uma língua imposta por um invasor europeu. A nossa língua materna, aquela que nós brasileiros usamos com orgulho e muito ciúme, veio do outro lado do Atlântico, junto com espada, chumbo, pólvora, chicote e muito sangue. Como já disse, não somos os únicos detentores dessa ambígua "herança". No percurso de invasão ao que futuramente se chamaria "Américas" e "Brasil", os emissários do reino de Portugal traçaram uma rota de muita violência. E deixaram feridas que supuram até nossos dias. "Ualalapi", do moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, é um romance nada convencional. Desprovido de um protagonista, o enredo parte da perspectiva do guerreiro que empresta o nome ao livro. Ele recebe a ordem de Ngungunhane, último imperador de Gaza, para matar o príncipe Mafemane. A partir desse relato, uma sequência de fragmentos contam uma história impossível de ser narrada, justamente por seu caráter frágil, múltiplo e irregular. "Ualalapi" é um livro difícil, principalmente pelas sombras e abismos que revela. No livro, um mundo de espíritos ancestrais sofre uma inevitável dissolução. Seja por conflitos internos ou externos, é possível observar que o tom é de constante perda. Não apenas pelo enredo irregular, mas principalmente pelas violências perpetradas. A oralidade é outro elemento marcante do texto de Ungulani. Os diálogos são frequentes e há constantes marcações coloquiais. Em dado momento, é levantada a questão do uso do Português, língua imposta a uma população falante de diversas outras línguas. Em um tom de amde, o texto questiona os valores ocidentais impostos. Com sua narrativa múltipla, seu tom de amargura e sua composição fragmentária, Ualalapi é um verdadeiro épico, uma epopeia daqueles que, embora derrotados e mortos, continuam até nossos dias a bradar seus protestos por alguma justiça.

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