estranhíssima a tradução e as escolhas de edição. tem umas coisas bonitas no meio, mas no geral é estranhíssimo o modo como o tradutor traduz nomes próprios, que se distanciam de como aquele nome seria transcrito de português, incluindo o da própria Safo.
por vezes também parece que a tradução é um interruptor que se liga e desliga ao bel-prazer, devido às palavras, termos, frases inteiras simplesmente não traduzidas [numa edição bilingue, veja bem] coabitando na mesma página com coisas traduzidas.
também são apresentadas variações de tradução de um mesmo poema numa mesma página, uma espécie de recriação de si [e de "Safo", por consequência] - entendo a intenção de dar margem para a possibilidade - o fragmento é a aventura da imaginação, diz Anne Carson -, mas é difícil me convencer de que esse gesto não reflete uma indecisão e instabilidade tradutória do tradutor, incapaz de fixar uma escolha tradutória e assumi-la. e escolhas não são tudo em tradução? e não é o que fazem todos em toda e qualquer tradução?
do mesmo modo que a tradução me parece guardar instabilidades, as escolhas de edição e o que escolher traduzir da edição me parecem igualmente livres - palavras e lacunas que não estão no texto original e que brotam magicamente na tradução -, além de ser possível identificar um modo mais livre e criativo de criar poemas imaginários de Safo, juntando fragmentos de forma sem dúvida aleatória, como marca o próprio tradutor em uma nota.
não nego que Brasil Fontes seja um poeta - talvez seja até mais poeta do que tradutor, considerando a qualidade literária de algumas considerações que constelam junto aos poemas. não digo que detestei tudo, porque de um ou outro poema e das soluções encontradas para eles realmente gostei. mas são estrelas raras.
se não fosse pela pesquisa, teria passado longe dessa tradução. existem outras melhores, mais rigorosas e menos fantasiosas. dentre as disponíveis no mercado atualmente, essa tradução aqui vale por um stranger things.