Ela & Ele
Almas Inquietas, tradução de 'Elle et Lui' foi publicado em 1859. Também há outras traduções, brasileira e portuguesa, com o título 'Ela e Ele' que é mais fiel ao original e que, pessoalmente, acho bem melhor do que 'Almas Inquietas', ainda que este título seja fiel à vida emocional das personagens.
Este romance trata de um triângulo amoroso entre Teresa, pintora, a protagonista; Lourenço, o pintor que é o tipo, para não dizer estereótipo, do artista romântico e homem de gênio que só consegue produzir em meio a dor e ao sofrimento; e Richard Palmer, um americano rico e culto, o que chamaríamos hoje de um autêntico burguês.
Aos olhos contemporâneos, é difícil tanto a qualquer homem identificar-se com Lourenço, cuja personalidade chega a ser piegas de tão infantil, quanto com Teresa, cuja personalidade chega a ser idiota ao tratar os homens com quem se relaciona ora como filho ou irmão mais novo (Lourenço), ora como um pai afetuoso (Palmer). Olha esse trecho:
'O que prendia Teresa a Lourenço era essa imensa piedade, cujo hábito
imperioso se contrai com os seres a quem muito se tem perdoado. Parece
que o perdão engendra o perdão até à saciedade, até à fraqueza estulta.
Quando a mãe chega à conclusão de que o seu filho é incorrigível, nada tem
mais a fazer senão abandoná-lo ou aceitar tudo.' (Sand, 1959, p. 167).
Maternidade era destino, mesmo na visão de mundo de uma mulher que escandalizava ao usar calças e pseudônimo masculino. Mas eu disse aos 'olhos contemporâneos' - porquanto na época esse livro causou celeumas e foi considerado imoral por tratar de um triângulo amoroso da perspectiva feminina: escritor mulher e narração da perspectiva duma protagonista, algo incomum à época porquanto o tema, relacionamento extraconjugal, era tabu e quando tratado, a perspectiva foi quase sempre do escritor homem.
O livro é bem convencional na forma, porém muito bem escrito no conteúdo. A autora sabe passar aos leitores a perspectiva do que cada personagem está sentindo e de suas motivações. É um romance autobiográfico, a partir do relacionamento conturbado e 'escandaloso' que ele teve com Alfred de Musset (1810-1857), um dos maiores poetas da época, entre 1833/34. 'Escandaloso' por ela ser casada, seis anos mais velha do que ele e já na casa dos 30 anos de idade. 30 anos àquela época era o equivalente aos 50 ou 60 anos atuais. Musset também escreveu uma obra - 'As confissões de um filho do século', 1836 - que dizem ser 'autobiográfica' porque também parte das experiências desse relacionamento; mas no seu livro o protagonista é traído por sua amante e, a partir daí, desilude-se com o amor. O livro de George Sand é uma resposta a ele, a versão da protagonista Teresa é a sua versão do relacionamento, já que ela ficou difamada após a publicação da obra de Musset. A personagem Lourenço, um ser atormentado, é a descrição do próprio poeta Alfred Musset. (A psiquiatria do século XXI o classificaria como bipolar.)
Mas os escritores românticos, que davam tanta importância à imaginação, muitas vezes escreviam ficção a partir de experiências autobiográficas, e tanto eles como os críticos seus contemporâneos tomavam tais experiências ao pé de letra, esquecendo um dos princípios centrais da literatura: por mais autobiográfica que seja uma escrita, a partir do momento em que você resolveu escrever e compartilhar como literatura, virou ficção. Nesse ponto sempre foram contraditórios. Tanto eles quanto os realistas, os naturalistas e quaisquer defensores do 'romance histórico' custam a entender isso.
Vale a leitura dos seus livros no século XXI tanto pela qualidade da escrita da autora, Sand é uma grande frasista, quanto por conhecimento sociológico: seus livros, imorais no século XIX, tornaram-se 'livros para moças' no século XX, traduzidos e publicados por editoras de perfil conservador em coleções como 'romances para moças' ou 'para juventude'. Prova de que o conservadorismo, nas artes, está quase sempre uma geração atrasada.