Em plena Guerra Civil de Espanha, Rogelio – um jovem galego de ideais republicanos – e alguns dos seus companheiros de guerrilha entram em Portugal clandestinamente, com o propósito de apanhar, na cidade do Porto, um navio que os leve aos Estados Unidos e os liberte para sempre da ameaça do fuzilamento e da prisão. Porém, no momento em que Rogelio se afasta do grupo para testar a segurança da próxima etapa da viagem, desconhece que virou do avesso o próprio destino: doravante completamente só num país que desconhece, o jovem sofrerá uma experiência próxima da morte que, paradoxalmente, o fará renascer como homem no seio de uma comunidade algo visionária, visitada e admirada por grandes intelectuais – a aldeia de Vilarinho da Furna. Ali encontrará o amor, de muitas maneiras. Exaustivamente investigado, narrado com mestria e beleza e com uma galeria de personagens admiráveis (entre as quais não podemos deixar de reconhecer, por exemplo, Miguel Torga), Rio Homem cruza duas histórias magistrais – a de um refugiado que perdeu todas as suas referências e a da aldeia comunitária que o acolheu e que hoje jaz submersa na albufeira de uma barragem.
'Coleção Novíssimos': sobre eventos históricos esquecidos que ganham a luz do dia
Há tempos temido em minha estante, talvez pela complexidade história, ‘Rio Homem’, livro de estreia de André Gago, se mostrou um livro que eu encaro facilmente como favorito; algo que eu não encontrava há anos. Talvez a empolgação se dê por ser um livro lusófono, mesmo que não necessariamente brasileiro. Mas bate aquele orgulho. Com uma precisão histórica e geográfica invejável (o autor revelou demorar 12 anos para escrevê-lo), Rio Homem fala sobre Rogelio, um jovem que, juntamente com um grupo de amigos, está fugindo da Guerra Civil Espanhola. O ano é 1939 e para fugir do fascismo liderado pelo Movimento Nacional, a única alternativa, é ir para Portugal. A fuga parecia perfeita, mas um contratempo faz com que o fugitivo permaneça em Vilarinho da Furna, uma aldeia já em Portugal. A história seria comum se não tivesse uma precisão história que catapulta história para outros patamares: Vilarinho de fato existiu, e não somente isto, mas a partir de então, o fugitivo Rogelio nos faz caminhar até o que o vilarejo se tornou desde 1971. É nessa aldeia comunitária, com ar de organização socialista e rodeada pelo Rio Homem, que Rogelio tenta se reerguer, mesmo que se sinta, não sem motivos, um homem sem liberdade, identidade e referências, ainda que acolhido e amado pelos habitantes – e amando também, de várias formas inimagináveis. Mais que carregar uma história pouco conhecida sobre uma área praticamente de Portugal, ou manter o ritmo de um livro por vários anos (o livro vai de 1939 a 1971, passando pelo fim da Guerra Civil, abordando sua extensão em Galiza, permeando pela Segunda Guerra Mundial e chegando até a Guerra Colonial Portuguesa – muita precisão histórica para um livro só, mas que não cai a peteca em momento algum), Rio Homem é um livro contemporâneo que nasceu como clássico por não somente retratar a História de Portugal, abordar de maneira franca, singela e respeitosa. Um livro atual sobre refugiados e a necessidade de abrir mão de identidade por conta de guerras, não importa a ideologia, ‘Rio Homem’ é um achado em anos. Um livro que deve ser lido, propagado, comentado e debatido pelo maior número de pessoas possível. A ‘Coleção Novíssimos’ tem a intenção de, em 10 livros, reunir importantes nomes da nova Literatura Portuguesa. Para saber mais sobre os outros livros, acesse:
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