Quando li título e sinopse, achei que se tratasse de uma obra que destrincharia as dores e pesares da perda de alguém, mas logo no primeiro capítulo, Montero adverte que, ainda que não saiba exatamente em quê exatamente o livro se tornará até seu final, não fala somente sobre a morte. Me senti um pouco enganado pelo título poderoso e sinopse, porém permaneci na leitura.
A obra, dita realmente além disso, a autora, enquanto escreve sobre a vida de Marie Curie, entrelaça a sua, assim como a de outros personagens sobressalentes da História e redige um texto que também fala sobre todos nós humanos.
É uma escrita que no primeiro capítulo, aparenta muito mais biográfica que "tocante" e poética, mas aos poucos, conforme se avança na leitura, vemos ideias e pensamentos sendo desenvolvidos por entre os relatos e uma sensibilidade e frases marcantes acabam por aflorar, como se nada quisessem, mas que me tocaram e sensibilizaram.
Inclusive por vezes torna-se política (por exemplo, quando a autora, por mais que dite que não é um livro sobre o feminismo, deixa muito claro seu posicionamento quanto ao papel das mulheres e o questiona muito) ou cômica e irônica sobre a vida em si.
Esta obra é um tanto quanto difícil de ser classificada. Não é apenas uma biografia de Marie Curie, é também a de Montero e além: a autora utiliza da interpretação como liberdade literária para falar de Marie; é também um relato das dores da vida, do luto, das alegrias e felicidades ínfimas, das conquistas, das perdas...
Senti falta de um desmembramento da relação da autora com seu marido, mas logo no 16º cap. "Escondido en...", menciona que um amigo escritor também levantou tal questão e declara o quão difícil é escrever sobre o mais íntimo. Ora, me parece uma contradição; Montero dá mostras e mergulhos profundos em alguns trechos enquanto em outros, parece contida, mas ainda assim, isso por si ressoa um tanto quanto íntimo; ela afirma que necessita sempre da mediação do conto e personagens de ficção para expressar-se, ou seja, estaria Rosa Montero utilizando os Curie como personagens fictícios para poder expressar suas próprias emoções? Acredito que, de certa maneira, sim (ou certamente sim!), pois a autora idealiza e interpreta ações, sentimentos e etc. entre os relatos históricos e biográficos dos Curie e por meio deles, narra também sobre si, ainda que não diretamente. Não obstante, a autora dá um ultimato: ela o recorda; o marido está dentro de sua cabeça; seu lugar está no centro do silêncio. Diante do poderio de tais palavras, precisa de mais algo para me convencer ou convencer o leitor?
Espero poder revisitar Rosa Montero em um escrito seu fictício.
Nota 4 de 5!