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    Um Pai em Nascimento -

    José Eduardo Agualusa

    Alfaguara
    2010
    137 páginas
    4h 34m
    ISBN-13: 9789896720193
    Português
    5
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    A partir de que momento nasce um pai? Com a notícia da sua anunciada paternidade? Quando sonha pela primeira vez com o filho ou vislumbra as suas formas difusas na primeira ecografia? Ao primeiro toque ou ao primeiro choro? De que forma um filho transforma a vida de um pai? E qual o papel do pai? De que forma pode o pai preparar-se para fazer face aos desafios de guiar uma criança pelo mundo? Como se equilibra a inocência redescoberta com a necessária responsabilidade? Estas e outras perguntas, de que todos os pais - e mães também - comungam em algum momento, servem de ponto de partida às reflexões e impressões literárias de José Eduardo Agualusa, que aqui partilha a sua forma de nascer e crescer como pai. As perguntas são de resposta tão difícil como as interrogações curiosas das crianças. As respostas estão dentro de cada um. Mas é magnífico acompanhar o autor nessa viagem pelo mundo dos pais e filhos, e descobrir ou reviver os belos momentos da gloriosa experiência da paternidade, "um tempo de assustadores mistérios, mas também de aliciantes prazeres e descobertas'.

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    Carina de Luca picture
    Carina de Luca11/09/2013Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Leitura obrigatória para pais

    As crônicas são escritas com o ar despojado que caracteriza o gênero, por vezes pincelando alguns outros temas, mas nem por isso perdem o tom de sacralidade que caracteriza o ato de um nascimento. Neste caso, o de um pai. Como nos transformamos em pessoas responsáveis por outra vida é a questão que Agualusa procura responder – sem sucesso (não há soluções) e com muita poesia. Trechos: - Vou ser pai, eu, que ainda estou a aprender a ser filho? *** Viajar no tempo, na verdade, viajamos todos e com incrível rapidez. Viajamos em direção ao futuro e ao inevitável desastre. O desafio consiste em fazer essa viagem sem deixar que o coração envelheça. Ter filhos pode ajudar. Um filho – seja criança ou adolescente – é uma espécie de âncora que nos agarra ao presente, impedindo-nos a deriva melancólica para o passado. Um filho leva-nos pela mão, como um pequeno cicerone, e dá-nos a ver o futuro: ali as maravilhas, acolá os monstros, e tanto os monstros como as maravilhas fazem parte do mesmo jogo – desafios a vencer com alegria. *** Um filho é também uma segunda oportunidade para ser criança – e para algumas pessoas pode ser a primeira oportunidade. *** Vou ser pai dentro dos próximos dias. A barriga da minha mulher cresceu prodigiosamente. Ocupa agora a cama toda, a casa toda, tropeço nela nos lugares mais improváveis. É uma barriga redonda, firme mas suave, que parece iluminar-se quando a percorro com os dedos, do mesmo modo que as águas do mar acordam um rumor de luzes – ardentia marítima – à passagem dos navios. Surpreendo-me ao descobrir que as mulheres muito grávidas perdem o umbigo, e depois penso que a transformação faz sentido, pois é isso mesmo que significa a maternidade: altruísmo, a entrega a um outro. *** A infância é o que conhecemos mais próximo da eternidade. (...) É um tempo inesgotável, e cuja essência perseguimos até o fim dos nossos dias. *** Descobri, felizmente, que o mundo está cheio de pais. Antigamente, eu conversava sobre livros, viagens, filmes, música, trocava receitas exóticas, debatia o difícil futuro da humanidade. Agora, discuto sobre fraldas, marcas de leite em pó, brinquedos e brincadeiras, ou sobre como enfrentar a meio da noite uma crise de cólicas. Quanto ao futuro, de repente, deixou de ser uma coisa abstrata – é lá que o meu filho vai viver. *** Um filho devolve-nos a inocência perante a vida – as crianças inauguram o mundo em cada dia e ao fazê-lo ensinam-nos a vê-lo, novinho em folha, como se também nós voltássemos a ser recém-nascidos. *** Um filho, portanto, infantiliza-nos, ou seja, reaproxima-nos da infância e, por consequência, da poesia. *** Somos jovens, invulneráveis, até o dia em que nos achamos com um filho nos braços. Então descobrimos que o mundo está cheio de perigos. A esta perpétua inquietação em que passamos a viver também se chama responsabilidade. *** Após um mês longe do meu filho, achei-o outro. Achei-o eu. Vejo-o a ele e tenho por vezes a sensação de que estou a ver-me a mim em versão reduzida e melhorada. *** Sempre é mais divertido reinventar o mundo do que encontrá-lo já pronto a usar. *** Aquela vida que irrompeu assim, aos gritos, para dentro da minha instalou-se entretanto nela com tal arte, e com tão sábia ternura, que não consigo já imaginar o mundo sem sua presença. *** Um avô é um pai em estado de orgulhosa irresponsabilidade. *** Um filho é sempre um recomeço. Um filho é a maneira que temos de reiniciar o mundo. Sofrerás, eu sei, com a crueldade e a injustiça dos homens. Em certas manhãs, acordarás sem ânimo. Talvez então te questiones sobre os motivos por que te trouxemos aqui. Trouxemos-te – é o que sinto – para que nos ajude a sermos melhores. Trouxemos-te porque te queremos melhor que nós.

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    José Eduardo Agualusa profile picture

    José Eduardo Agualusa

    Agualusa é um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade. Nascido em Angola, mudou-se ainda jovem para Portugal, para estudar agronomia e silvicultura. Acabou alterando a sua carreira para o jornalismo, passando a colaborar para vários jornais, entre eles o <i>Público</i>. Sua obra foi traduzida para mais de 25 idiomas, e em 2016 foi um dos finalistas do Prêmio Man Booker, pelo romance <i>Teoria geral do esquecimento</i>. É autor de romances, contos, novelas, livros infantis e peças de teatro. Sua estreia ocorreu, em 1988, com <i>A conjura</i>, romance que lhe valeu o Prêmio Sonangol Revelação de Literatura de Angola. Seus livros percorrem muitas realidades, mas estão mais centrados em personagens do que em lugares. Alguns deles são baseados em figuras reais como a poetisa Lídia do Carmo Ferreira (<i>Estação das chuvas</i>) e a rainha Ana de Sousa (<i>A rainha Ginga</i>). Também publicou <i>Nação crioula</i>, vencedor do Grande Prêmio de Literatura RTP, <i>Fronteiras perdidas, Barroco tropical</i>, e <i>O vendedor de passados</i>, que ganhou o Prêmio Independente de Ficção Estrangeira do jornal <i>The Independent</i>. Em 2017, venceu o Dublin Literary e, com o prêmio em dinheiro recebido, pretende instalar uma biblioteca pessoal na Ilha de Moçambique, aberta aos habitantes do local. José Eduardo Agualusa acredita que os livros são um território de pensamento e a literatura é um exercício permanente de colocar-se na pele do outro.

    52 Livros
    151 Seguidores

    José Eduardo Agualusa