Outro livro ridiculamente fino, perfeito para salas de espera. Há qualquer coisa de muito familiar nesse conto, na estrutura da narrativa, algo que remete diretamente às histórias de Sherazade nas Mil e Uma Noites. Não se trata de uma coincidência - Vathek foi escrito numa época em que o Ocidente em tudo se maravilhava com o exotismo do Oriente. Curiosamente, eu o achei um livro mais sobre essa visão ocidental que sobre o Oriente mesmo. É um livrinho curioso, cheio de espaços abertos, de paisagens magníficas – a torre do califa, o despenhadeiro, as cavernas dos anões, a visão infernal ao final. Mas, talvez exatamente pela forçosa comparação com As Mil e Uma Noites, deixa algo a desejar. Há muito mais encanto e graça na forma como Sherazade tece suas fábulas. Vathek, contudo, deseja impressionar com cenários e ações grandiosas... e acaba pecando pelo excesso. Fausto, que tem a mesma fundamentação de Vathek - um homem que, seduzido pelo conhecimento, acaba por abrir mão da própria alma – é bem mais interessante, na medida em que o bom doutor tem consciência da escolha que fez, enquanto o califa parece ensandecido, completamente alheio àquilo que não faz parte de sua obsessão. Fausto é suficientemente humano para que você se identifique e seja capaz de sentir compaixão por ele, ao contrário do califa, que só parece humano quando está prestes a perder sua humanidade. Enfim, livrinho curioso, que encontrei por indicação do Jorge Luís Borges, que escreveu um ensaio sobre o Inferno de William Beckford em comparação ao de Dante. Recomendado para salas de espera de dentista – o barulhinho da broca ganhará todo um novo significado! (resenha originalmente publicada em www.owlsroof.blogspot.com)
Vathek - O Califa Maldito
William Beckford
Civilização Brasileira
1971
139 páginas
4h 38m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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