"Em italiano, mattinata significa o período da manhã. Se escrevermos a palavra no Google Images, encontraremos fotos da uma luminosa praia de mesmo nome na Regione Puglia, de uma Cafeteira da Arno e do mais recente livro de Fernando Monteiro. O livro é formado por três poemas narrativos longos: Mattinata, Escritos no Túmulo e E para que ser poeta em tempos de penúria? Mattinata é uma coedição da Nephelibata (SC) e da Sol Negro (RN). Parabéns a ambas, que em parceria trouxeram à tona esta coleção de poemas de Monteiro, do qual já conhecíamos os romances e o extraordinário poema Vi uma foto de Anna Akhmátova." ___Milton Ribeiro --- "Os três poemas deste livro de Fernando Monteiro prosseguem a meditação iniciada com o seu 'Vi uma foto de Anna Akhmátova' (Fund. de Cultura Cidade do Recife, 2009) e vão em direções até certo ponto convergentes, desde o primeiro - o 'Mattinata' do título geral -, no cenário de intimidade das horas finais de uma relação amorosa, sendo personagens a voz interrogativa de um homem a contemplar a amante que ainda dorme no quarto de um hotel e também a cidade (estrangeira?) na qual essa separação coincide com o começo da manhã a se insinuar na dobra das coisas. O segundo poema recua longamente no tempo - parece inscrito em lápides romanas que murmurassem algum daqueles segredos 'que não são para se contar'. E essa intenção se desloca da forma para evocar também o tema da ruína da ruína, ou seja, a situação da própria civilização em tempos de vulgaridade extrema. O terceiro e último poema desdobra o eco dessa 'vulgaridade' no âmago da cultura, a partir de uma espécie de elegia em torno da morte do poeta Roberto Piva, ocorrida em 2010. Pós-beatnik até o amargo fim, Piva se manteve 'selvagem' a vida inteira, avesso ao comércio literário de todos os tipos, e, quando morreu quase como indigente num hospital de São Paulo, ninguém pareceu perceber o dedo acusador por ele apontado através de um verso (retirado de Hölderlin) citado em praticamente todos os necrológios do rebelde paulista - E para que ser poeta em tempos de penúria? - A partir desse 'mote' - e de uma forma bem diferente daquela dos poemas anteriores - de alguma maneira a grandeza e a miséria (para lembrar um título de Alfred de Vigny) da Poesia em épocas de "penúria", passam a estar no centro indignado do quase 'manifesto' que, aqui, revolve a própria música do verso e confronta, igualmente, o modus da sua recepção num mundo 'antipoético' por excelência, conforme muitos denunciam o tempo presente." ___Márcio Simões
