Em 2019, o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Peter Handke, causou inúmeros protestos. Considerado racista, não é de hoje que suas declarações anti-OTAN e a favor da Sérvia tem lhe causado problemas. Ele já teve até um prêmio retirado e várias peças canceladas, em especial, após seu discurso de apoio a Slobodan Milosevic durante o enterro do ex-líder sérvio.
Em contrapartida, são constantes os elogios a sua extensa obra, que consegue ter fôlego para escapar ilesa de seu posicionamento político. Inclusive, no Brasil, ele já teve vários livros editados, mas por ocasião da premiação, a maioria estava esgotada, um problema que provavelmente será contornado nos próximos meses graças a recente popularidade adquirida. Enfim, acabei optando pelo título que me pareceu mais atraente numa reduzida lista, na qual não constavam os mais celebrados pela crítica.
Trata-se de ?Don Juan? (narrado por ele mesmo), um romance de enganosas 140 páginas, se tratado como rápida leitura, à medida que avancei lentamente, tentando compreender a complexa personagem construída por Handke. Por sinal, uma personagem criada por Tirso de Molina no século XVII e que desde então tem merecido inúmeras versões, como uma comédia de Molière, a ópera ?Don Giovanni? de Mozart e até um popular filme, ?Don Juan deMarco?, estrelado por Johnny Depp e Marlon Brando.
Sinteticamente, o romance de Handke não é narrado pelo próprio Don Juan conforme o título propõe ser, sua história é contada por um ouvinte solitário, cozinheiro e dono de um albergue próximo aos escombros de Port Royal Des Champs, famigerado monastério francês. A personagem é seu único hóspede durante uma semana, pois o local durante o inverno fica praticamente às moscas, propiciando um contato mais estreito entre seu proprietário e essa estranha aparição que surpreendentemente veio parar em seu jardim e não admite qualquer intervenção durante seu relato que cobre a semana anterior, período que voltara a atividade após a morte de seu filho, uma perda que o distanciara das pessoas. Logo, sua confissão abrange sete aventuras, cada noite num local e com uma mulher diferente. Sete histórias que exibem estruturas e algumas personagens semelhantes e que vão ficando cada vez mais econômicas, já que a narrador decide poupar o leitor das recorrentes sincronicidades.
E por falar em sincronicidade, o livro aborda a tempo de maneira muito peculiar, isto é, o tempo das histórias narradas e a passagem do tempo pelos jardins do albergue e ambos são cruéis com Don Juan. Paralelamente, Handke igualmente exibe a personagem de maneira original, chega a brincar com outras versões da lenda, inclusive, abarcando inovações, por exemplo, Don Juan não é um sedutor nem seduzido por suas amantes, mas tem poder de despertá-las da vida solitária que levam. Sem uma proposta moralizante ou apelo erótico, na verdade, ele parece encarnar ?uma alegoria da dupla freudiana Eros e Tânatos?, segundo o crítico afirma Márcio Seligmann-Silva em sua comentário sobre o livro para a Folha de São Paulo, em 21 de janeiro de 2008.
Exibindo o preciosismo técnico do autor e uma boa tradução de Simone Homem de Melo, o livro me pareceu um requintado prato de um restaurante cinco estrelas porém de sabor insosso. Enfim, terei de ler mais de Handke, para avaliar se o Nobel realmente lhe caiu bem. Finalmente, levei cerca de um mês para receber o livro e ele faz parte de uma nova edição, isto é, acaba de sair do prelo e já apresenta o selo do Nobel de Literatura. Com capa brochura com abas, ele foi impresso em papel branco de boa opacidade e possui agradável diagramação. Recomendo.