"Antropologia da Doença" não é um livro qualquer, é fruto de um longo estudo em que François Laplantine mergulha em entrevistas com pacientes, médicos e curadores, além de obras literárias, para pensar de maneira impressionante como entendemos a saúde, a doença e até a cura. É um livro denso, daqueles que pedem releitura, mas que mesmo na primeira vez já abre um leque enorme de reflexões.
Precisei lê-lo dentro de um prazo apertado, o que deixou a leitura um pouco cansativa em alguns trechos. Ainda assim, me surpreendi com a clareza e a riqueza do raciocínio do autor, que vai conectando modelos médicos (ontológicos, relacionais e outros) com o imaginário social e cultural.
Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi a forma como o livro aborda o sagrado na relação com a vida e com a doença. Laplantine mostra que, diante do sofrimento e da busca incessante por entender o “porquê” das coisas, procuramos dar um sentido maior à existência. Essa busca de sentido, de explicação, aparece como uma tentativa de reintroduzir uma aparência de eternidade ao que é efêmero (a própria vida). E é nesse movimento que a reflexão sobre saúde e doença ultrapassa o biológico e se aproxima de algo profundamente humano.
É um livro para ser relido, porque cada vez pode revelar novas nuances. Mesmo assim, já na primeira leitura ele provoca transformações na forma de pensar saúde, doença e cura. Recomendo a quem deseja compreender como esses conceitos se entrelaçam na cultura contemporânea e nas nossas próprias vidas.