Nunca uma obra me deu tanto sentimentos mistos quanto Demônios.
O livro apresenta uma crítica válida ao excesso de ideologia. Uma perspectiva interessante quanto às potenciais consequências do niilismo. O livro é engraçado e tem personagens extremamente interessantes.
Mas nunca uma obra de Dostoiévski foi tão explicitamente reflexo da eslavofilia do autor. Sinto que isso afetou bastante o enredo e, em muitos momentos, tornou Demônios mais panfletário que literário — destruindo a possibilidade de nuance que teria elevado esse livro para a completa grandiosidade.
Irmãos Karamazov é seu magnum-opus por vários motivos, mas também por não temer em criticar o seu próprio lado com fortes argumentos. Em Demônios, porém, sinto que a voz opositora foi bastante caricaturada e vilanizada.
Focando demais em representar o pior de seus inimigos ideológicos, Dostoiévski falhou em representar como o mesmo excesso de ideologia pode causar consequências semelhantes para o seu próprio lado. Focando demais em defender o status-quo, Dostoiévski falhou em perceber que o maior responsável pela 'degeneração da sociedade russa' foi esse próprio status-quo.
O livro continua sendo bom, não me entenda mal. Mas é frustrante o quão bom o seu olho esquerdo é, enquanto seu olho direito é completamente cego. Definitivamente vou continuar pensando nele como uma pedra no meu sapato, mas podia ter sido melhor.