Doutrina das Cores -

    Johann Wolfgang von Goethe

    Nova Alexandria
    2013
    209 páginas
    6h 58m
    ISBN-13: 9788574923727
    Português Brasileiro

    A filosofia do século XVII, nas suas versões racionalista e empirista, com o corte que fazem entre qualidades primárias e secundárias, não podia ver as cores como problema do pensamento. A natureza pouco misteriosa das cores era perfeitamente analisável no campo da Física ou da Óptica. Já no século XVIII, com Hume, as cores parecem constituir-se numa bizarra exceção às leis associativas que constroem o mundo da experiência. E, em nosso século, Wittgenstein chegará à ideia (incompreensível do ponto de vista clássico) de uma lógica das cores. Nessa história da concepção das cores, a Doutrina de Goethe, (a que o leitor brasileiro tem agora acesso na tradução de Marco Giannotti) ocupa um lugar crucial. Pertencendo ao gênero peculiar da Naturphilosophie (que seria privilegiado pelo Romantismo Alemão), a Doutrina das Cores contrapõe-se a uma perspectiva estritamente físico-matemática, sugerindo que a óptica de Newton é cega para as cores. Goethe pretende fazer obra científica, mas sobretudo, redescobre a cor como fenômeno da experiência vivida – essa experiência cuja “verdade” só emerge de maneira pura com a pintura. Não se trata mais de uma física da luz e não se trata ainda de uma lógica das cores. Talvez pudéssemos dizer – com o risco de algum anacronismo – que, com este grande clássico da literatura e da filosofia, se esboça, pela primeira vez de forma sistemática, uma fenomenologia do visível.

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    Caio Lobo01/12/2023Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Goethe vs Newton

    A teoria das cores de Goethe foi uma resposta à teoria sobre a luz de Newton. Nesse duelo de gigantes ambos vencem e perdem; Goethe perde ao não reconhecer que a luz decomposta é formada por várias cores, mas vence ao observar as cores de outro ponto de vista além do físico; Newton perde por não considerar a cor química, pois unindo todas as cores de tinta não se tem o branco; mas vence por usar de empirismo em sua teoria. Goethe considerou três categorias de cores: a fisiológica, que depende dos olhos de quem vê; a química, que lida com as tinturas e tingimentos; e a física, a interação da luz com os objetos. Goethe percebeu a relação entre core complementares, e que a união de diversas cores que não são luz tem um efeito subtrativo, se aproximando do negro, cinza ou marrom com as diversas misturas. Hoje usamos o sistema tanto de Newton como de Goethe, sendo o de Newton o sistema RGB (red, green, blue) de cor-luz, e de Goethe o sistema CMY (cyan, magenta, yellow). Por incrível que pareça, as cores complementares citadas por Goethe (amarelo x púrpura; vermelho x verde), são tese e antítese e isso influenciou Hegel. Outro ponto de destaque é a tentativa de acabar com o mito de 7 cores do arco-íris de Newton, pois de há três cores primárias e delas derivam três cores secundárias, e primárias se complementam com secundárias, então há 6 cores, o que mostra que o sistema de Newton tem cor sobrando. Na verdade Newton, como bom hermetista, seguia a mística do número 7, assim como Pitágoras fez com 7 notas musicais, todos inspirados nos 7 planetas, então se havia 7 notas musicais, 7 planetas, 7 dias da semana, então devia haver 7 cores principais (e aí temos que usar a imaginação para achar o ciano ou o violeta no arco-íris). Goethe também antecipa o problema do “qual é a cor do vestido”, pois percebe que pessoas podem ter percepções diferentes da cor, o que também antecipa a fenomenologia. Goethe buscar fazer uma interpretação subjetiva universal das cores, o que é problemático, pois nem todos verão nobreza no vermelho (ainda mais hoje que ideologias tomaram essa cor). O amarelo como entendimento me é estranho, mas o preto e branco claro que lembrarão a noite e o dia, o verde a vegetação e o vermelho o sangue, pois isso sim são experiências comuns a todos (talvez o verde como vegetação não o seja para esquimós). Mas fora estes detalhes as percepções e intuições de Goethe são perspicazes, mas isso não anula Newton. Pode-se dizer que Goethe e Newton são cores complementares.

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