Sou fã incondicional de poesia, principalmente por acreditar no que diz Roland Barthes: que a literatura é a única forma de trapacear a língua, que é fascista por natureza. E, para mim, a poesia é a trapaça mais bela e melhor sucedida. Então, sempre que possível, me entrego à sutileza dos versos.
Em Pseudopoesia, Alves Rosa tece um livro repleto de versos melancólicos e pessimistas, o que me agrada imensamente. Mesmo quando fala de amor, o eu lírico se mostra incrédulo ou deprimido. A saudade muitas vezes se manifesta nas palavras, assim como as decepções amorosas. A agonia se torna, constantemente, palpável.
Outra característica marcante da escrita do autor é a metapoesia. Diversos versos do livro são dedicados à própria poesia, falando do processo de criação, do sentimento colocado nas palavras, da dor, da angústia de não conseguir escrever o verso perfeito. E, nessas poesias, foi onde eu mais me reconheci. Quem escreve sabe como é doloroso ter o coração cheio de palavras, mas a folha vazia.
"Desejo...
Verbo ou substantivo, já não faz diferença
Tornaram-se um, tornaram-se eu" (p. 12).
Outro ponto que me agradou bastante no livro foi as diversas homenagens e tributos que o eu lírico presta em sua obra. Miguel de Cervantes, Chico Buarque e Florbela Espanca são alguns dos contemplados. Isso demonstra que, além antes de ser um bom escritor, o autor foi um leitor de excelentes livros, o que sempre torna a escrita mais rica.
Um detalhe que me surpreendeu ao ler a obra foi a forma simples que o autor escreve, se distanciando bastante da poesia clássica, mas sem perder a profundidade. Aliás, acredito que é exatamente a falta de forma fixa preestabelecida que torna a leitura tão cativante e ágil. Sem falar que facilita bastante a leitura para quem ainda não é proficiente nesse gênero literário.
Quanto à parte física, não há o que reclamar. O livro tem uma capa bonita e que transmite exatamente a essência da obra: tanto pelo poeta representado na capa quanto pelas cores menos vibrantes utilizadas. Não obstante, a diagramação é muito agradável, contando com letras grandes, espaçamento confortável, folhas amareladas e até mesmo algumas ilustrações.
"Tentei escrever,
colocar os sentimentos em palavras.
Pensei em você,
os versos, em gotas, molharam o papel" (p. 28).
O único ponto que não me agradou em toda obra foram duas poesias redigidas em língua inglesa. Não que as poesias fossem ruins, pelo contrário, eram ótimas; porém, é bem provável que muitos dos leitores não sejam leitores fluentes de tal idioma – meu caso – e tenham que recorrer a dicionários. Talvez fosse mais válido escrever todo o livro em língua portuguesa. Porém, esse pequeno detalhe não tira o brilho da obra.
Diante de todas as características apresentadas, é impossível não indicar o livro. Não importa se você é amante ou não de poesia, você tem tudo para gostar da obra.