O Tronco é um romance do escritor goiano Bernardo Élis publicado originalmente em 1956. É o quarto livro de Élis, e apresenta uma versão fictícia de fatos históricos ocorridos no início do século XX no norte de Goiás (atual estado do Tocantins), que promoveram uma intensa disputa entre jagunços e soldados do Exército Brasileiro, representantes do coronelismo e do poder público, respectivamente. Apesar de ser uma obra de ficção, diz-se que tais fatos teriam ocorrido na cidade de Dianópolis. Em 1968, o cineasta João Batista de Andrade adquiriu os direitos da obra para adaptá-la para o cinema. Tal adaptação, entretanto, só ocorreria mais de trinta anos mais tarde, no ano de 1999.
O Tronco -
Bernardo Élis
Leviatã enfraquecido x Homem lobo do homem
Sugestão de leitura: O Tronco, de Bernardo Élis (Livraria José Olympio, 1974). Livro ficcional (com semelhanças e coincidências da vida real), publicado originalmente em 1956, que retrata uma batalha épica entre famílias no norte goiano (onde hoje seria o estado do Tocantins), no começo do século XX. Livro muito bom, embora em certos momentos o autor use e abuse de descrições, o que na minha opinião “trava” a evolução da estória (história?), mas ainda assim nos prende (especialmente no final). Arriscaria dizer que “O tronco” seria um “Os sertões”, de Euclides da Cunha, da literatura goiana: com descrição do ambiente, do homem, da batalha – ainda que sem essa distinção formal nO Tronco como em Os Sertões. Além disso, talvez a grandeza do livro seja em mostrar a ausência do Estado e a onipresença do Poder paralelo de famílias ricas, dos coronéis da República Velha no monopólio da força. Ou antes: no oligopólio da força! Nomeações para cargos públicos, incluindo e destacadamente as forças policiais e do Judiciário, o controle do Poder Legislativo (estadual na Cidade de Goiás e como representante da Província na capital federal, o Rio de Janeiro) e por tabela do Executivo municipal e estadual. E quando essa estrutura de Poder apresenta rachaduras, o resultado é um conflito que opõe a cidade em dois lados, numa briga de morte e destruição de patrimônios (público e privados), deixando qualquer estrutura de poder e autoridade (um Leviatã) subjugada a uma anarquia do “homem lobo do homem”, sem qualquer respeito à vida, à história, à ética: familiares contra familiares, prisioneiros “de guerra” sendo sumariamente exterminados sem direito a julgamento ou perdão, sem distinção entre “soldados” e civis, sem consideração de idade (crianças e idosos sofrendo tanto quanto os demais) e sem considerações por cessar-fogo: só valia a rendição (o extermínio) incondicional do outro lado. Outro ponto que merece reflexão é o retrato de servidores do Estado desmotivados, não valorizados e com salários muito baixos. O resultado disso são juízes que não querem se comprometer em julgamentos que podem desagradar certos ramos políticos que o poderiam indicar para posições melhores ou lotações menos penosas ou soldados das forças policiais, mal treinados, mal equipados e mal remunerados que sonham em virar “jagunços” para poder ter direito ao saque (espólio) ao final das batalhas. Triste realidade. Mas muito boa a leitura. Ainda mais para quem se interessa em conhecer um Brasil rural, do interior, ensimesmada com sotaques, tradições e, por que não dizer leis diferentes e próprias e esquecida da civilização urbana do início do século XX.
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