Fragosas brenhas do mataréu -

    Ricardo Azevedo

    Ática
    2018
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-13: 9788508162000
    Português Brasileiro

    Um jovem de cerca de 15 anos se vê abandonado após a morte da mãe, perseguida sob falsa acusação de bruxaria pela Inquisição. Ele seria apenas um adolescente nos dias de hoje, mas numa Portugal do século XVI, em que os garotos precisam se tornar homens muito cedo, acaba condenado a trabalhar na frota ultramarina portuguesa e embarcar numa arriscada viagem para o Novo Mundo. Além das dificuldades da viagem que termina em naufrágio, o jovem, ao pisar nas desconhecidas e exóticas terras de um Brasil ainda em formação, precisa enfrentar meses de sobrevivência solitária ao léu até encontrar os colonos. Ao encontrá-los, depara-se também com índios catequizados e o modo como funcionava seu relacionamento com os portugueses. Outras aventuras ainda aguardam o narrador-protagonista, que, entre paixões, encontros, perigos e descobertas, descobre o choque entre o confronto das verdades estabelecidas e o desassossego de uma vida pulsante e repleta de indagações.

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    Coisas de Mineira31/03/2021Resenhou um livro
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    Fragosas Brenhas do Mataréu, do escritor Ricardo de Azevedo, foi vencedor do Prêmio Jabuti de 2014 na categoria Infanto-Juvenil, tendo sido publicado pela Editora Ática. Um romance de formação, que acompanha parte da juventude de um português de cerca de 15 anos, no século XVI, que tem a vida transformada ao ver a mãe ser acusada pela inquisição por prática de bruxaria. Por serem pobres, o agora órfão fica à disposição do rei, que o envia para as terras brasileiras. Depois de muitas tribulações a bordo da nau Nova Conceição, ele naufraga e vem parar na costa brasileira, terra amaldiçoada, onde o diabo reina em seus afazeres – é uma visão recorrente de muitos portugueses, tementes à Deus, e que viam a travessia ao novo continente como uma condenação. Para sua sorte, e por ter aprendido muito com sua mãe sobre plantas, acaba se embrenhando na mata, em busca de abrigo e comida. E assim vamos acompanhando o jovem, que passa por todas as agruras da adolescência, pela descoberta da sexualidade, e tem de virar adulto para enfrentar tantas adversidades em terras brasis. “– Gosto de vosmecê desdezinho o brilhabrilhoso dia quando no arraial pela primeira vez nossos olhos se casaram! – E disse mais: – Se vosmecê encontrar um dia a morte vai sair de sua boca um beija-flor escapar feito frecha. Depois um pé de vento vai soprasoprar e girar e gemer e ventar ventando com tamanha força que, mesmo longelazinho, logo vou eu saber.” Já na apresentação de Fragosas Brenhas do Mataréu, o autor relata seu interesse pelo período colonial brasileiro, e de sua extensa pesquisa sobre os aspectos históricos e linguísticos, e o deslumbramento e medo do olhar de alguém que aportou no Brasil nesse período. Por conta disso, a linguagem é poética, e pode levar um pouco de tempo para o leitor se adaptar, uma vez que o autor procurou se assemelhar – mas não reproduzir, a linguagem e as “formas de falar recorrentes naquele tempo. “Contou mais tarde o padre Simão, cheio de medos e preocupações, que, na capela, durante a reunião dos principais do arraial, garantiu a senhora dona viúva que uma situação tão malazarada e jamais vista só podia ser obra do manfarrico, do manes, do asmodeu, do satanás, do sujo que não sofre quando vê alguém sofrer.” O jovem português se mostra um ótimo contador de estórias, e por conta disso temos estórias dentro da estória. Além dele, a jovem Jurecê traz muitas fábulas de sua tribo, que fazem uma contraposição com as narrativas cristãs apresentados pelo rapaz. “A tudo assistiram, por detrás da moita a surucucu e o sapo. -Pois não disse eu? – exclamou a cobra – Não é a peçonha! O que aos homens maltrata, pica, fere, envenena e mata é o medo!” Outra passagem de Fragosas Brenhas do Mataréu que desperta interesse é quando o narrador e Mané Mulato são feitos prisioneiros por índios selvagens, junto com o judeu Diogo Caldeirão. Acontece que os índios são antropófagos, e a índia Ibirité tenta explicar por que os índios mantém sua cultura – o que suscita a discussão sobre diferenças étnicas e o choque cultural entre índios e europeus. Mas é nas descobertas do jovem acerca daquele pedaço de mundo novo, nas relações com personagens – índios, mamelucos, negros, mestiços, judeus cristãos-novos, as relações de poder numa terra com um rei distante, que a estória se concentra e dirige nosso olhar para a formação do nosso país. Em como as vilas se formavam, como bandeirantes se embrenhavam pelo mataréu em busca do ouro, nos animais que acabaram com algumas dessas vidas – e até nas brincadeiras dos bugios com esse novo animal, que viria a se tornar seu principal predador. Mas ainda com um olhar penitente e cheio de vida, na ingenuidade e na crença de que é possível fazer melhor – nosso narrador vai aprendendo e ampliando seu mundo. “Impressionou-me deveras perceber o poder que simples narrativa podia ter. De um lado, fazer meu coração sentir-se de alguma forma vingado. Ao mesmo tempo, fazer pensar e meditar toda a gente do povoado sobre as fraudes e torpezas que no mundo podia haver.” Acima de tudo, Fragosas Brenhas de Mataréu mostra os primeiros anos de formação do Brasil, trazendo a discussão da colonização, da miscigenação dos povos e, consequentemente, de culturas, crenças, no que se torna o amadurecimento do narrador, mas que pode ser facilmente transposto para as terras de Santa Cruz! Por: Maísa Carvalho Site: www.coisasdemineira.com/fragosa-brenhas-de-matareu-ricardo-azevedo-resenha/

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