Em Eclipse, primeiro volume de sua última trilogia, John Banville propôs uma história de fantasmas atípica, a medida que "os espectros que vagueiam pela narrativa não são emanações do passado, mas projeções do futuro". Nele, Alex Cleave, um ator fracassado, apresenta sua filha problemática, Cass, que acaba cometendo suicídio sem deixar maiores explicações.
No segundo volume, "Sudário", a figura da jovem ressurge. Dessa vez, sob a perspectiva de um outro homem, Axel Vander, um acadêmico judeu que assumiu a identidade de um amigo e fugiu da Bélgica para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra. Esse fato foi claramente inspirado em dois escândalos ocorridos na década de oitenta: a descoberta póstuma de textos anti-semitas escritos pelo crítico literário Paul de Man e o assassinato de Hélène Legotien pelo marido, o filósofo Louis Althusser.
Cass é uma pesquisadora literária que acaba de descobrir que Vander não passa de uma farsa e combina encontrá-lo em Turim durante uma conferência sobre Nieztche, para tratarem do assunto. Singularmente, nessa cidade também está guardado o Santo Sudário, um objeto de veneração cuja origem é contestada. A partir daí, Banville explora impecavelmente "os meandros da culpa, do engano e das aparências". Aliás, temas recorrentes na maioria de seus livros que primam pela escrita requintada e trabalhosa.
É inegável uma certa semelhança entre Alex Cleave e Axel Vander. Alex é um egocêntrico que no palco não consegue atuar, mas na vida não cansa de desempenhar o papel que considera mais apropriado, enquanto que Vander não passa de um ator que assumiu uma nova identidade e vem desempenhando esse papel há décadas. Cass não nega a atração pelo pai e é fácil compreender seu envolvimento com esse homem misterioso, que também é um velho rabugento e destituído de beleza, mas que consegue aprisioná-la numa rede de mentiras. Ao tentar justificar sua farsa, curiosamente, seu discurso segue na contramão de suas atitudes, no entanto, um quê de sinceridade vaza vez ou outra nas entrelinhas.
Com um desfecho magistral, Sudário é um romance investigativo e cabe ao leitor formular sua teoria sobre quem realmente é Axel Vander. Banville afirma ser uma de suas obras preferidas, "um livro cruel ou um filho monstruoso que ele estima, mas que horroriza as outras pessoas". Venha conhecê-lo...
?Ah, Axel?, disse, suavemente Kristina, ?só uma pessoa incapaz de amar pode ser tão abnegada no amor.?