Comecei esse livro com algum interesse e expectativas básicas: que me entretesse. Fui surpreendida por uma narrativa cativante desde a cena inicial, com sua descrição de uma recepção de fins do século XVIII e começo do XIX, através dos pensamentos e emoções de um jovem oficial da Marinha, Jack Aubrey, e seu primeiro encontro pouco promissor com o naturalista (e depois médico mais ou menos improvisado) Dr. Maturin.
Esse olhar de O' Brian sobre os dois personagens - focando ora as experiências de um, ora do outro, ora os pensamentos de um, ora do outro - concentra, no meu entender, a qualidade chave do romance - que, usando de um vocabulário frequentemente naval, torna algumas passagens (e manobras da chalupa/brigue "Sophie") mais difíceis de ler, dada a complexidade para um leitor não familiarizado com essa linguagem, como é o meu caso. É a capacidade de O' Brian de nos fazer gostar de seus protagonistas - tão diferentes, e logo tão unidos por uma amizade tranquila, generosa, afetuosa, a qual não falta algum humor - que pode nos levar a ler com prazer, com interesse, e por vezes até paixão, esse romance. Vi leitores considerarem fraco o desenho psicológico dos personagens; eu já não acho; é sutil, pouco óbvio (quando falei da amizade como "afetuosa", por exemplo: o modo como os homens se gostam é distinto de como as mulheres se gostam, e O' Brian o evidencia) e, como em muitos grandes escritores - O' Brian foi comparado a Jane Austen, e não me pareceu exagero nesse aspecto - mostrado através de atitudes, de ações, de falas, e só às vezes por meio da intervenção direta do autor narrador em 3ª pessoa. Um outro recurso seu para "explicar" os personagens é colocar dois deles discutindo suas impressões - em geral opostas - sobre um terceiro. É, assim, uma tessitura rica que o escritor apresenta, e nos ganha. A mim ganhou. Cativada por sua dupla de protagonistas, o alegre, genial no mar e tolo em terra (como qualificou com justiça um crítico) Jack Aubrey, e o reservado porém amável, reflexivo, hábil em terra e ignorante no mar, Dr. Stephen Maturin.
Há uma galeria de personagens secundários igualmente bem desenhados, que enriquecem o quadro geral do livro - quase sempre a bordo do "Sophie" - e nos pintam um quadro vivido da vida no mar em fins do século XVIII e começo do XIX.